Linguagem[+]

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

NATAL E MINHAS REMINISCÊNCIAS DA INFÂNCIA


Sempre que chega dezembro
Se projeta em mim a infância
Dada a saudade; a distância
Encurto e, ora, lembro
Ser, da família, um membro
Da atenção de um presente
Para o meu ser inocente
Que tinha contentamento
Durante todo o Advento
Do Natal, no dia e à frente.

Sentia uma força viva
Para também presentear
Os de fora e os do lar,
Mas mamãe, persuasiva,
Iludia-me com a evasiva
De que seria o advento,
O tempo do cumprimento
Com votos às boas festas
A todos. – "E bastam estas
Atenções!" Foi-me o escarmento: 

Desejo a todos, e a cada um em particular, um Sacrossanto Natal festejando o Menino que veio para saciar a fome do espírito e alma com o sagrado Pão Eucarístico que Jesus viria, um dia, a consagrar. E, da mesma forma, votos de um Feliz Novo Ano para mitigar a sede do corpo e da mente dos mais recônditos desejos reprimidos pela pandemia prolongada, mas não finda ainda, à celebração da vida em festa de Réveillon e a  cada momento do novo ano. 

Laerte Tavares.  

    Ainda, sobre reminiscências de infância, lembro que para enfeitar a noite natalina, fazíamos lamparinas com lâminas de cortiça de rolhas de vinho, do meu pai, que seccionadas e fendidas até um pequeno furo no centro do círculo feito com um arame quente, se atravessava curtos fios de algodão a servir de pavio; enquanto o toco de rolha posto a boiar no azeite sobre água era aceso dentro de copos coloridos, que queimando durante a noite, dado o baixo consumo de combustível pelo minúsculo pavio ou torcida (como o nominavam, também), iluminava o caminho para São Nicolau colocar nossos presentes nos respectivos ninhos feitos de barba-de-velho. 

     Para demonstração ao meu filho Arthur, confeccionei um exemplar, que exponho fotografias.

Lamparina acesa

Nesta foto dá para observar 
o azeite separado da água


Lâmina de rolha de cortiça

A amiga Micaela Santos, dos Açores, brindou-me com uma maravilhosa POSTAGEM no seu Blog OFICINA DA KAELA em que exemplifica essa tradição familiar. 

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

CINQUENTA ANOS DE ENGENHARIA CIVIL DA TURMA 1971

 

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS

Deusa Minerva - Engenharia
Livro editado

    Escreveu o poeta Gonçalves Dias, na A CANÇÃO DOS TAMOIOS – “Não tema, que a vida é luta renhida, viver é lutar”. Ora, fora da atividade profissional, aposentado e olhando para trás, vejo o quanto lutamos, mas tudo aconteceu tão naturalmente, a parecer que as adversidades e peleias foram coisas banais, sem grandes esforços e não sentindo que a vida foi uma luta renhida, pois à juventude o embate é feito passeio prazeroso, apenas.

    Dia quatro de dezembro do ano corrente, a minha turma do curso de Engenharia Civil, 1971, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS comemorará jubileu de ouro (cinquenta anos), a ser celebrado com missa em ação de graças, almoço festivo e outros eventos complementares aos encontros e atividades realizadas, até então. Creio ser uma glória podermos vivenciar nossa conquista dizendo algo semelhante ao que disse o general romano Júlio César ao vencer uma guerra: “Veni, vidi, vici!” (Eu vim, eu vi, eu venci!).
    A prova de lutas, vitórias, percalços em eventos hilariantes, tensos e de júbilos da turma e de cada um, durante o curso e depois dele na vida profissional, foram objetos de meticulosa pesquisa, resgatados, catalogados e registrados em volumosa obra de um vibrante e esforçado colega, Vanderlan dos Santos Fraga que os registrou no livro editado FATOS, VIVÊNCIAS & HISTÓRIAS. (Muitas das histórias, escritas por quem vivenciou a sua própria façanha.) Aqui me permito abrir parênteses para cumprimentar o escritor e os seus colaboradores, com elogios, dado o trabalho de excelente qualidade – parabéns, amigo Vanderlan e aos seus!
    Quero homenagear colegas e mestres com um poema em décimas do cancioneiro Ibero-português, arremedando Gonçalves Dias em seus versos:


A CANÇÃO DOS FORMANDOS 



Se a vida é luta renhida,
Lutar não é tão penoso,
Visto que nos leva ao gozo
Da vitória pela vida
Planejada e concebida.
E o objetivo que dista, 
Conforme o ponto de vista
Intrínseco de cada ser,
Pode-se, então, obter
Lutando para a conquista.

Traçado o rumo e o destino
Singramos, a viajar
Em misterioso mar,
Sem bússola, mas pelo tino
Feito nauta peregrino.
Com procela, em rumo torto,
Na calmaria, em conforto,
 Mas quer com vento ou bonança,
Quanto mais a nau avança
Distará menos, do porto.

Por fim, o destino vem.
Atraca-se em seguro cais
Aos acertos finais
Daquilo que nos convém.
Mas viajamos além,
Já formados; sempre em luta, 
Com a vontade absoluta
De vencer – vencer na vida
Com a profissão aprendida
Para exercer a labuta. 

Depois vem a sobrevida:
“A idade do condor”:
Dor aqui...  ou  onde for...
Saúde ou dor, vai-se à lida
Evitando a recaída,
Cauteloso e preparado
Pelo costume ou por fado.
Importante é caminhar,
Mesmo andando de vagar
Tomando todo o cuidado. 

E viva a exata Engenharia!
Bem como os Irmãos Maristas!
Viva as nossas conquistas!
E vivamos com alegria
Tendo a cabeça por guia,
O coração por amante
Da vida, para ir avante
Com muita fé e esperança
Dentro d'alma da criança
Do adulto itinerante!...

sábado, 30 de outubro de 2021

CENTO E UM ANOS DE ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

     


MÁSCARA

Uma histórica lembrança
Ou um permanente adereço?
Estaríamos no começo 
De um novo tempo que avança
Para o caos e essa herança
Nós deixaremos ao mundo 
Como exemplo de um profundo
Desprezo ao meio ambiente
Profanado e que doente 
Deu-nos o vírus imundo?

 Dois mil e vinte foi um ano extraordinário para a Academia Catarinense de Letras, guardiã da língua portuguesa e fomentadora da literatura e da cultura do Estado de Santa Catarina, para as festas comemorativas, por ter completado seus cem anos de existência no dia 30 de outubro daquele ano, data coincidente com o ápice mais feroz do ciclo pandêmico causado pela COVID-19, sem que pudéssemos comemorar, mas muito ainda se fez na travessia do surto exacerbado da crise. Em dois mil e vinte e um, queremos comemorar esta data de hoje com luzes sobre nossa Academia triunfante surgindo do outro lado da pandemia (que começa a amainar pelas providências sanitárias), com diversos aleijões, notadamente perdas fatais de membros do nosso sodalício, contaminados pela Coronavírus. Porém, graças às providências da diretoria atual, que tem à testa o preclaro acadêmico Moacir Pereira, foi possível continuar nossas atividades e tomar providências do preenchimento de vagas sendo editada inscrições no Diário Oficial à convocação de eleições dos novos aspirantes às Cadeiras respectivas, em que em um só pleito foram eleitos cinco novos membros permanentes (donec ad mortem). Para tomarem posse, os cinco novéis Acadêmicos começaram a marcar suas respectivas solenidades de posses, imediatamente. É com prazer que nominarei aqui os eleitos: Cadeira 4 – Rudney Otto Pfützenreuter; Cadeira 7 – Kátia Rebello: Cadeira 12 – André Ghiggi Caetano da Silva; Cadeira 22 – Umberto Grillo; Cadeira 25 – Maria Tereza Fiuza Lima Mascarenhas Passos. 

No ano de 2020, mesmo com a terrível pandemia a diretora anterior, presidida pelo ilustre professor e poeta acadêmico Pinheiro Neto, muito foi feito para enaltecer a centenária Academia Catarinense de Letras, como lançamento de um selo postal comemorativo pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos estampando o logotipo da ACL; a composição de um hino em comemoração ao centenário, com letra do vate acadêmico Artêmio Zanon, experto nessa arte, em produção de diversos hinos institucionais para municípios catarinenses. Foram também confeccionadas máscaras de proteção contra a contaminação do Coronavírus com o referido logotipo, bem como outros eventos se realizaram com a participação presencial de reduzido público, conforme recomendação sanitária. Em consequência, institucionalizou-se as sessões virtuais pela internet, já com a nova diretoria. 

Exaltemos, pois, nossa Academia Catarinense de Letras e a arte literária. 

 

A ARTE LITERÁRIA
Autor: Laerte Tavares

Deus deu ao humano ser certo talento
Para fazer da pedra bruta a arte
Na qual houvesse a mais singela parte
Do divinal ao humano sentimento.

Entre bruto e beleza existe um elo
Que é o divino; e a humana criatura,
A pedra bruta, pega e a transfigura
Em objeto de arte que é o belo.

Chama-se verbo, o invisível ente
Que guia o escritor e ele o sente
Por uma divina graça que apura

O pensamento vago em uma corrente
Vinda do além – é a luz resplandecente
Da arte expressa na literatura!

domingo, 26 de setembro de 2021

PRIMAVERA

 


Chegou a primavera, colorida,

Pondo em minha alma poesia e flores. 

Potencializou meu coração com amores 

Exacerbados que eu trago na vida. 

 

Com o que eu amo a nobre e querida 

Mulher e amante em graça e louvores,

Fez paixão pura de superiores 

Desejos cárneos, na união vivida.

 

Tornou o amor uma flor de primavera:

Da vulva, o gineceu; do membro, antera 

A levar pólen à fecundação.

 

Do gozo e orgasmo, fez suprema e vera

Sublime sensação de uma espera

A transcender  o prazer vero e vão. 


Ocasião em que Laerte Tavares recebe das mão de Ernesto Ordovás o livro relativo ao jubileu de ouro dos cinquenta anos de formandos em engenharia civil em 1971 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - Porto Alegre RS, em que Laerte foi um dos formandos e que compôs um poema constante da obra.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

ANITA GARIBALDI

 Comemora-se no dia trinta do corrente mês o Bicentenário de Anita Garibaldi – a heroína de dois mundos.

   

Anita na Fonte – obra do
catarinense Martinho de Haro.
Acervo do Museu Casa de Anita

 

ANITA

Na praia uma linda flor
A bela orquídea imita.
Porém muito mais bonita
Dado o matiz multicor.

Um nauta navegador,
Com lentes, busca a infinita
Visão. Vendo a flor Anita
Jura-lhe um eterno amor.

Saltando em terra, o guerreiro
Inala da flor o cheiro
Quando a fragrância a ilumina.

Como esposa e companheira,
Anita fez-se a guerreira
De dois mundos – a heroína.
*Por Laerte Tavares



Obra contemporânea em homenagem ao bicentenário da heroína Anita Garibaldi, de autoria do genial artista da arte literária e pictórica Umberto Grillo, Desembargador Federal, escritor que enalteceu, em obra literária esmerada, a vida do cofundador de nossa centenária Academia Catarinense de Letras, Othon da Gama Lobo D’Eça que, junto a  José Boateaux e outras figuras ilustres, criaram nosso Sodalício.




Anita Garibaldi – obra do artista genovês                       Anita, obra do pintor catarinense Willy 
Gaetano Gallino. Ano de 1845 na cidade                                                   Zumblick
                  de Montevidéu


       Uma amiga portuguesa me perguntou quem foi Anita Garibaldi. Respondi ser uma brasileira catarinense de nome Ana Maria de Jesus Ribeiro, que viveu na primeira metade do século XIX, considerada “heroína de dois mundos”, por lutar na América do Sul e na Europa. No Brasil lutou pela Revolução Farroupilha e no Uruguai contra as tropas argentinas que visavam controlar o comércio no Rio da Prata. Já na Itália, seu grande feito foi lutar pela unificação do país, combatendo ao lado do companheiro Giuseppe Garibaldi, também consagrado herói.
    Ana, para o mundo, ficou conhecida como Anita, devido à dificuldade de pronúncia de Garibaldi que assim a tratava. A jovem guerreira atuou efetivamente nos movimentos revolucionários a diferentes países: Brasil, Uruguai, San Marino e Itália. Exemplo de bravura que motivou os italianos na busca pela unificação do país.
    À época de Ana, a atividade comercial do Estado de Santa Catarina era insipiente, mas seus entrepostos marítimos contavam com o Porto de Laguna (cidade que serviu de marco territorial ao Tratado de Tordesilhas), movimentado com o comércio terrestre e marítimo. Duzentos quilômetros distantes dali, em altitude a cerca de 900m, situava-se o município de Lages, com seus vilarejos circunvizinhos no Planalto Serrano, onde predominava a atividade agropecuária. O transporte de mercadorias, a exemplo do sal e dos produtos industrializados, como lampiões, enxadas e outros artigos, eram levados à serra. Já o charque, pinhão, canjica, fubá, jacás de fumo em corda, enchidos defumados, toucinho salgado e torresmo, iam de Lages para o litoral; mercadorias  essas, transportadas nos seirões (grandes cestos oblongos atrelados às cangalhas) sobre lombos de muares e asininos, dado o caminho íngreme, acidentado, possível apenas para animais de cargas ou cavalo de montaria individual que, além da sela encilhada, levava à garupa nos peçuelos (espécie de dois alforjes – um de cada lado das ancas do animal em couro curtido) roupas e utensílios pessoais, sobreposto à presilha do laço (em tentos de couro cru tramados) ou do sovéu (fino e curto laço grosseiro em três tentos de couro cru torcidos – tipo corda). Demais ferramentas, alimento e roupas iam nas bruacas (grandes malas retangulares – uma de cada lado da cavalgadura, em couro cru, costuradas à mão com tentos de couro cru), transportadas por animais cargueiros.
    Ana nasceu de pais tropeiros – talvez até em uma dessas tropeadas, num trecho do caminho entre as duas cidades, enquanto conduziam uma tropa de bovino a Laguna para uma feira pecuária. É fato que, desde menina, ela acompanhava os progenitores nas jornadas, tornando-se exímia amazona nas lidas das tropeadas.
    Ainda adolescente, Ana se casa com um morador de Laguna, tamanqueiro por profissão, cujo enlace pouco durou devido às diferenças de gênios, culturas e costumes. Com a separação do casal, ela passa a morar com parentes, enquanto ele se alista na Guarda Nacional do Império, que lutava contra a revolta republicana, que veio a se instalar na região sul do Brasil. Ao conhecer o revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, decidida, Anita se junta às suas tropas contrárias ao Império, surpreendendo a todos pela denodada bravura em combate. Ao tempo em que viveu com Garibaldi, ela se superou nas batalhas, lutando até seu último instante de vida.

Obs.: um relato curioso narrado pelo senhor Jacinto Bagio, 94 anos, quanto ao transporte de mercadorias à época. Isso ilustra a vida campeira daquele tempo, transportando porcos: 
(Fonte: Vídeo – Rádio Guarujá)


                                                      
    Alegoria da Revolução –                                           Anita, Anita, pelo artista brasileiro
óleo sobre papel sobreposto a cartão;                       Galdino Guttmann Bicho, 1919
de Johann Moritz Rugendas, 1846-48




ANA MARIA

Do grande amor de um tropeiro
E de um cavalgante ventre,
Entre equinos, gado e entre
Jornadas sem paradeiro,
Ana de Jesus Ribeiro
Nasceu; e um certo retardo
Foi feito para o resguardo.
Pra mãe não ficar sozinha,
A comitiva inteirinha 
Parou também no aguardo.

Depois de uns dias passados
De repouso e muito zelo
Reuniram o sinuelo
Com o gado, dos dois lados
Da via. Já encilhados
Os cavalos, mulas cargueiras
Carregadas e pelas beiras
Da sinuosa estrada
Iniciaram a jornada,
Atrasados para as feiras.

Ana de Jesus Ribeiro,
Apelidada de Aninha,
Das veias paternas tinha
Bons dotes de cavaleiro
Herdados do pai boiadeiro,
Visto que desde menina
Foi a criança ladina
Que aprendeu cedo e seria
Melhor que ele em montaria
Por ter bem mais disciplina.

Um dia, em pelo, ao cavalo
Sem sela e só barbicacho,
Aninha enfrentou um macho
Atrevido e, ao surrá-lo
Ele cai dentro de um valo
E quase perde sua vida.
Mas Ana o socorre em lida
Sozinha, essa heroína,
Adolescente menina,
Tornando-se bem conhecida.

Contam que a moça, a trote
Ligeiro, de erguido relho,
Correu atrás do fedelho
Por entender ser preciso
Que ele tomasse juízo.
O moço, em disparada
Zarpou. À margem da estrada
O cavalo tropeçando
Derruba o jovem. Foi quando
Ana o livra da enrascada.

Esse, o primeiro feito
De denodo e valentia
Da rapariga, que iria
Levar-lhe a um conceito
De nobreza por seu jeito
Altruístico e de valor,
Perdoando o pecador
Mas condenando o pecado,
Pelo tratamento dado 
A um filho do Criador.
*Por Laerte Tavares


Selos postais     

   
                                                                     Anita com seu chapéu de feltro 
                          (calabrês) com penacho


    *Em alguns registros, autores destacam a importante participação feminina, mesmo que indiretamente, na Guerra dos Farrapos. Diversas mulheres assumiram os negócios da família enquanto seus maridos e filhos lutavam na guerra. Outras, na maioria índias, anônimas em relação à Anita, acompanharam seus maridos nos campos de batalha. Muitas delas tomavam conta das pontas de gado, da munição, tratavam os feridos e algumas até pegavam em armas na defesa contra o inimigo.



Anita, (obra) morte ocorrida em Mandriole, Itália. Instante em 
que as tropas garibaldinas fugiam das tropas suíças. Acometida 
por uma crise de febre tifoide, Anita falece em 4 de agosto
de 1849, grávida de cinco meses do quinto filho.



Giuseppe Garibaldi – retrato Risorgimento 
italiano, Duroni,  Alessandro; Pozzi, T. A.
Collocazione: Lovere (BG), Accademia
di Belle Arti Tadini. Museo Cassioli
Pittura senese dell'Ottocento


Narrativa escrita por Garibaldi, entregue ao 
seu amigo e admirador Alexandre Dumas (pai), 
que publica no final de 1860. 

 

 

Monumento em homenagem à Anita Garibaldi,
na cidade de Laguna, SC


Monumento no Janículo, em Roma,  Itália. (obra de Mario Rutelli). 
Retrata Anita, quando da passagem em que fugia carregando 
o filho Menotti, de 12 dias,  ao serem atacados em São Luís das 
Mostardas/RS em setembro de 1840


Letra para o hino em homenagem à heroína - 1915.
Material referente ao “Levantamento Bibliográfico, Anita Garibaldi. 
Pesquisa realizada nos Jornais Catarinenses da Biblioteca Pública 
de Santa Catarina, disponíveis na Hemeroteca Digital Catarinense 
e Hemeroteca Digital Brasileira (1889 – 1968).” 
Organizado por Helen Moro de Luca 





Lanchão, suspenso sobre rodas atrelado a juntas de
bois – carregado até o rio Tramandaí-RS

 


Varais com charque (carne-seca) – Rio Grande do Sul. Fonte: GZH/RS
 
O charque do Rio Grande do Sul abastecia o mercado interno, mas com os 
altos  tributos sobre o sal, o couro bovino mais o charque (alimento 
principal dos escravos), gerou a insatisfação entre os estancieiros. As altas 
taxas  teriam levado os produtores gaúchos a lutar pela independência 
 do estado em relação ao governo central,  o que motivou os conflitos. 
Os farroupilhas  almejavam uma República Federativa permitindo
 autonomia às leis,  para a economia local.


ANITA GARIBALDI - (1821-1849)
"A Heroína de Dois Mundos"-
Documentário – Anita Garibaldi / Amores e Guerras:


Pergunta que não cala e insistente,
Mas sempre sem razão: Quem foi Anita?
Respondo ser um ente que gravita
À frente do seu tempo – muito à frente!

Exímia em equitação, sóbria e valente
Era a bela donzela e esquisita
Fera indomável e arisca que habita
A selva virgem, solta e independente.

Quando acuada, mostrava quem era.
Punha de fora as garras  de pantera
A incendiar o mundo, a leve chama.

E essa indomável peregrina fera
Se fez universal, em atmosfera
De guerra heroica, a heroína dama.


sábado, 10 de julho de 2021

A ARTE PERDE UM ARTISTA

 

Obra de Rodrigo de Haro pertencente a Sandra, minha esposa. Eis o Pierrô a chorar por Colombina. E eis a ilha emocionada e abraçada à serra frígida junto aos elegantes aparados pétreos, demonstrando que seus corações não são empedernidos, a prantear aos quatro ventos em uníssono com a Ilha de Santa Catarina, humilde e reservada chorando pela perda de Rodrigo.


Cartaz / Rodrigo H - Fundação Badesc

    

    Semana passada, perdi um dos últimos amigos de fraterno convívio na pujante e bela juventude, Rodrigo de Haro, um dos maiores artistas brasileiros da arte pictórica e literária, filho do grande pintor Martinho de Haro. Conheci Rodrigo apresentado por Marcos Konder Reis, na década de 1960,  num excelente boteco instalado num humilde rancho de canoa à beira da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando à mesa rústica, ele compartilhava com Benito Batistotti, um rico madeireiro catarinense, mecenas do Cinema Novo, que veio a ser, mais tarde, concunhado do irmão de Rodrigo, cujas festas de núpcias, Marcos e eu viemos de Armação do Itapocoróy a Florianópolis, na sede do Veleiros da Ilha, para participar do evento com Rodrigo; e não demorando, chegaram outros ilustres amigos... À mesa do boteco no Rio, entre prosas descontraídas, degustamos alguns camarões ao bafo, pescados na hora e preparados em seguida, regados à cerveja gelada, após doses de caipirinha. 

    Rodrigo e Marcos conviviam cultural e socialmente, na cidade maravilhosa, com as mais ilustres figuras icônicas da arte, àquela época; a exemplo de Vinícius de Moraes, colega de Itamarati do Marcos; Paulo Mendes Campos, escritor que viajara com Marcos em turnê pela Europa; Maria Alice Barroso; Lúcio Cardoso; Murilo Mendes; Otto Lara Resende; Paulo Saraceni, cineasta amante do Cinema Novo; e tantos outros. Frequentavam também, essas figuras, um barzinho de Ipanema, juntos a outras figuras icônicas como, ainda, Vinícius, Leila Dinis, Helô Pinheiro (a garota de Ipanema) e gente ligada à música. 

    Voltei a encontrar Rodrigo nos fins dos anos sessenta em Florianópolis, onde a família havia fixado residência. No Rio de Janeiro, moravam em casa própria muito aconchegante, no bairro de Laranjeiras e, em Florianópolis, numa residência à Rua Altamiro Guimarães. Já formado, de Porto Alegre, passei a residir à Rua Alves de Brito, vizinha à Família De Haro. Foi quando reencontrei Rodrigo, mantendo nossa amizade até seus últimos dias. 

    Faço homenagem à memória do amigo Rodrigo, no meu estilo literário, porque ele era apaixonado pelas décimas do cancioneiro; e em arremedo ao seu estilo em prosa poética na qual ele era exímio.



Rodrigo (Imagem / internet)

 


Despede-se, enlutada, a ilha,
Do seu magistral pincel
Mais ilustre e o mais fiel
Intérprete da maravilha
Do belo insular que brilha
Nas eternizadas telas
Pictóricas nas belas
Paisagens, com brilhos, cores,
Ou máscaras, arcanos, flores
E anímicas formas singelas.

                                       Laerte Tavares




    Desenho de Rodrigo, sua santa de devoção e nome do nosso Estado. Imagem que tanto ele pintou, cantou, escreveu e produziu um extraordinário livro que levou de presente, junto a uma comitiva do Governo do Estado catarinense, ao Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, Egito. Para Rodrigo um milagre contínuo e perpetuado, presente em nosso tempo, é ter três religiões (Islamismo, Cristianismo e Judaísmo) proprietárias do bem, convivendo simultânea e harmonicamente, com seus ritos e liturgias diversas, no mesmo local em horários diferentes, frequentados por multidões de seguidores, em que nos arredores todos se aglomeram e convivem fraternalmente. É um milagre! – dizia Rodrigo, que interagiu com esse povo eclético.

 


Foto de nosso acervo

 

    
    Eis que é chegada a hora, o dia, o mês, o ano! E tu, vate imortal em ser humano, findaste-te à Terra, oh mestre! A tua alma poética singrou ao panteão dos deuses, enquanto Deus, no Reino da Glória, recebeu o teu espírito para o descanso eterno. Tua memória irá permanecer por tempo afora ao consumar dos anos de lembranças à tua obra perene. Porém, amigo, vai chegar a hora indefinida do esquecimento. Sabeis, agora, oh imortal de luz tão pura, que quando a luz da barca rompe o cerco e chega com aferro, com garras e com dentes, entre diáfanos nevoeiros, já não há tempo para o desespero; e num efêmero e longo suspiro, a luz de nossa vida é ofuscada e, repentinamente tudo é nada para ser tudo num outro plano onde deveis estar. Junto ao Altíssimo, vate, sabemos que vós contemplais nossos pobres espíritos a tentar buscar a luz do sonho, mas até chegar o dia, a hora, o mês e o ano para partir e vos encontrar no plano desse confuso e perfeito universo, espírito de luz. Hoje, canto em verso e prosa mansa, nossos entendimentos, para que sintas igual à criança que tu foste como ser humano, Rodrigo – em atrevido adulto que optou por ser um pobre artista rico do saber.
    Sabeis também, oh vate transcendente, que a vida é, talvez, qual luz de vela que ao leve sopro da brisa mansa e resfolegante, apaga ao entrar pela janela da casa antiga do Morro do Assopro, a encimar o belo promontório junto a secular capela de Nossa Senhora da Conceição, na bela Lagoa da Conceição, cantada em versos, a exemplo do hino de Zininho que tu, humano artista, o homenageaste em afresco na fachada da Caixa Econômica Federal da Praça XV, em Florianópolis.
    À partida de Rodrigo, aos prantos, a serra abraçou o mar ao enxugar seus olhos tristes. A terra dos ancestrais de Rodrigo, nascido em país europeu, aos eflúvios hibernais de São Joaquim, gelado, beijou a Ilha do Desterro desse artista.
    Os entes, entre querubins, silfos, ninfas, musas, serafins, arcanos, orixás, ao toque de uma trombeta sacra entoando uma canção bem popular, gravitando, levaram a alma do velho amigo – o bardo augusto, à morada eterna do céu preparada para o justo pecador, redimido pelas graças redentoras.


  São Galo (Imagem / internet)   
 

    O nosso pintor partiu no dia de São Galo (Saint Gall), o santo artista da música, falecido em 01 de julho de 554, descendente de família tradicional da corte da França, país onde Rodrigo nasceu. S. Galo era um servo dedicado às cerimônias da Santa Missa, causa que o levou a se especializar nos cânticos sacros. Relatos afirmam que além do talento à música, era dotado de uma excelente voz, capaz de encantar e atrair fiéis para ouvi-lo cantar no coro do convento. Em seus feitos, o mais citado, foi ter salvado a cidade de um incêndio que ameaçava transformar em cinzas as construções locais. Galo teria aplacado as chamas que se apagavam, conforme as suas orações eram entonadas.


  Cartaz / Rodrigo - Fundação Badesc

 

UM HINO A RODRIGO DE HARO
                                                        Autor: Laerte Tavares

Os anjos do céu, contentes,
Recebem o vate Rodrigo,
Na paz de Deus e ao abrigo
Da morada dos bons entes,
Dos justos e dos inocentes,
Cantando glória e louvor
A Deus Pai Nosso Senhor,
Por chegar mais um eleito
Triunfante pelo pleito 
Em vida, vivendo o amor.
 
Rodrigo partiu, mas resta
Da vida, a memória sua
Tão viva, que continua
Florindo em gloriosa festa
Perpetuada, e à testa
As suas obras completas
Entre pintores, poetas
E excelentes muralistas
Ou tantos demais artistas
Com baliza em mesmas metas.  

Deixaste, Rodrigo, enorme
Obra; e de conteúdo
Denso de beleza em tudo.
Por diversa, a ser conforme
Ao teu ser que à campa dorme,
Mas teu espírito glorioso
Dos céus, sob o eterno gozo
Da Luz do Pai Criador
Reflete o teu esplendor 
Em brilho resplendoroso.
 

ESTRIBILHO:

Cantemos Glórias ao ente
Em sua monumental obra
Que nos deixou de presente
Como excesso que, ora, sobra
Da grande alma indulgente.




Rodrigo à hora do nosso café semanal junto 
ao amigo  Pedro Port, grande poeta, quando 
declamávamos nossos mais recentes versos. 




Foto de Marcos Konder Reis 
(capa de excelente obra do 
confrade Artêmio Zanon)

Foto de Gilberto Gerlach - reprodução/
Rodrigo H - divulgação ND



Foto de Rodrigo e Sandra, em visita. 



Mosaico de anúncio do filme 
GENIALIDADE TOTAL



Poema a Rodrigo, aos seus oitenta anos.




Última foto que temos do amigo Rodrigo com 
nossa querida amiga Leila, esposa do artista
 plástico  Idésio Leal, que com fidelidade canina 
acompanharam Rodrigo até o último leito. 
Junto a foto, que a pedido dele, Leila  nos encaminhou.

Com a fotografia, Leila escreveu-nos:

"Hoje reparei que o azul do céu estava intenso; que havia um formato um pouco surrealista nas nuvens, em pleno meio-dia; que os raios de sol entravam pelas janelas do quarto e faziam aqueles desenhos clubistas na parede branca. Sim, era mais uma manhã de inverno, eu e meu querido Rodrigo de Haro contemplando nosso jardim." Leila Leal.