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quinta-feira, 29 de março de 2018

ANIVERSÁRIO DA "COLONIZAÇÃO" OU POVOAMENTO AÇORIANO NO LITORAL DE SANTA CATARINA

 Engenho de farinha de mandioca / fonte Internet   

 

        Na obra Os Argonautas ou A Argonáutica, do último clássico grego Apolônio de Rodes, Açores figura há duzentos e quinze anos, antes de Cristo, como o último reino de um matriarcado existente em uma das ilhas.
        No século XIII, cartógrafos entre genoveses e maiorquinos, já tinham em cartas geográficas aquelas ilhas do arquipélago açoriano. No ano de 1440, os portugueses começaram a povoá-las com diversas etnias, o que resultou num povo mesclado e de grande valentia – exímios marinheiros, intrépidos nautas e excelentes pescadores. Povo esse que colonizou o litoral de Santa Catarina.
        Em complemento ao texto da postagem Faces hachuradas da colonização ou povoamento açoriano no mundo meridional, em homenagem ao 270º aniversário da presença açoriana no estado catarinense, deixo um poema narrativo com um pouco mais da sua história.


                          AÇORIANOS NO SUL DO BRASIL


 
Açores foi “descoberto”
Muitíssimos anos antes
Do Brasil, por navegantes
Que viram uma Ilha e perto,
Mais algumas.  Por certo,
Fez-se um descobrimento.
 Seguindo ao povoamento
 Dom Henrique pretendia
Pôr habitantes com porfia. 
E para tanto, um fomento.


Mandou enormes rebanhos
De gado à Santa Maria,
Pois a carne supriria
Quaisquer percalços estranhos
Aos seus projetos tamanhos
De mais uma possessão,
Já que as ilhas eram e são
Viáveis para pastagens.
Depois se deram as viagens
De uma enorme ocupação.


A ânsia por habitantes
Às ilhas fez Portugal
Abrir portas, em geral.
Gente de todos quadrantes
Acorreram pouco antes
Do grande “descobrimento”,
Quando se deu o evento
Da demanda ao Brasil
Desse povo de perfil
Versátil ao novo intento.


Às ilhas, o contingente
Migratório foi de heróis
Idos de diversos sóis,
De oriente ao ocidente
Ou de trópico diferente.
Povos treinados à luta
Renhida, para a permuta
Da terra pelo oceano,
Em que o gênero humano
Tem que ser o mais arguto.

E foram lobos do mar
Forjados nos vãos das vagas,
Nas profundezas das plagas
Onde se pode forjar,
Na pressão do milibar,
O perfil pétreo em penedo
Desse homem qual rochedo
Trazido do fundo abismo
Para provar o heroísmo
Destituído do medo.

Por isso, o açoriano
É de uma têmpera valente.
Marujos ao mar temente
Enfrentam em soberano
Respeito ao oceano
Que aprenderam a vencer
E deram linhagem a um ser
Também soberano e forte.
Vindo do Atlântico Norte,
Mais um novo contingente
 Que às ilhas fez-se presente  
Em grandes naus de transporte.

Traziam como bandeira
Um açor em voo pleno,
Na alma. Predador sereno
Dessa flâmula altaneira
Da legião estrangeira
De uma gente afeita à luta.
Porém, sem haver disputa
O anímico açor se irmana
Com uma nova massa humana
Na paz mais absoluta.

Integrado assim à gente
Indígena e negra, ele fez
A diferença, talvez
Com o saber experiente
Para a produção corrente
Na obtenção da farinha
De mandioca, que tinha
Semelhança a do trigo
No modus faciendi antigo
Conforme lá se obtinha.


O produtor açoriano
Deu uma base à imigração
Do árabe, do alemão,
Do judeu e do italiano.
E com esforço sobre-humano
O litorâneo aguerrido
Viabilizou um sentido
Para o desenvolvimento
Do sul do Brasil, com o tento
Da noção de um povo unido.

Assim, por essa razão,
Sendo o colonizador
Incentivou o labor
Na industrialização
Metalúrgica, do alemão,
Como têxtil e as demais,
Sendo os verdadeiros pais
Da indústria, nessa linha;
Tal ao engenho de farinha
Português, nos arraiais.

Também a estabilidade
Econômica e financeira
Da indústria brasileira
Foi apoiada, em verdade,
Na antiga sociedade
Entre o índio e o açoriano,
Pondo fábricas no plano
Do factível que fazia
E se manufaturaria
Da roça ao meio urbano.

A nós, na literatura,
Açores deu vários filhos
Preclaros de raros brilhos.
Machado de Assis, figura
Como a grande criatura
Que a cultura simboliza.
Cecília Meireles, poetisa
Da maior envergadura
Com uma obra que perdura
E madura se eterniza.

Sem falar em Rui Barbosa
O grande “Águia de Haia”,
Um defensor de atalaia
Contra a “Força Poderosa”,
Ao direito que se esposa
Como a “Força do Direito”.
E há outro, grande sujeito:
Senhor Érico Veríssimo,
De livro preciosíssimo
“O Arquipélago”, feito.

Nascido na nossa ilha,
Conforme memória ilustra,
Marcelino Antônio Dutra
Era o “Poeta Maravilha”,
Sangue de Açores que brilha
Na história, qual deputado
Que soube dar o recado
Em mil oitocentos e cinquenta
Em oposição se sustenta
No verso bem-humorado.

Desterro, entre outras ilhas
Dos Açores, é também
Açoriana, pois tem
Semelhança às outras filhas
Portuguesas, e há milhas
Longe, no oceano à frente.
Desterro é no continente,
Mas parecida às demais
Por culturas ancestrais
Da história de sua gente.

Enciúma-se Faial,
Mas sua irmã, a das Flores,
Disse ser rusga de amores
Já que Desterro é igual
As outras, e Portugal
As têm por filhas irmãs.
A do Corvo diz ser vãs
Essas lamúrias sem-fim,
Porque Desterro é assim
Como as demais são – cristãs.

A Ilha de São Miguel
E São Jorge batem palmas
Por suas singelas almas
Sem pretensões, no papel
De ser leal e fiel
A Portugal. E a Terceira
Faz-se a grande companheira
À Desterro de onde veio 
Muitos casais que no seio 
Da Ilha ficam bandeira.

Ilhas de Santa Maria,
A do Pico e a Graciosa
Acharam uma primorosa
Conquista, que merecia
Maior atenção, por via
De poder viabilizar
Projeto no além-mar,
Precisando de mais gente
Para, consequentemente,
Dar mais vida ao lugar.

Duzentos e tantos anos
Passaram-se e a história,
A tradição e a memória
Dos povos açorianos
Valorosos, soberanos,
Enaltecemos, então:
Salve a miscigenação!
Salve essa gente guerreira!
Salve a nação brasileira!
Salve a colonização!

segunda-feira, 19 de março de 2018

FACES HACHURADAS DA "COLONIZAÇÃO" OU POVOAMENTO AÇORIANO NO MUNDO MERIDIONAL

imagem – Internet

     
        No ano de 2018 ocorreu o 270º aniversário da chegada dos primeiros Açorianos em Santa Catarina, que partiram do Atlântico Norte, em 21 de outubro de 1747, e chegaram ao Brasil em fevereiro de 1748 para tomar posse do solo e povoar parte do território brasileiro. Apesar disso, a cultura lusitana exclui os termos migração, tendo esse deslocamento humano como uma redistribuição de habitantes de uma mesma nação, a territórios diferentes – muito comum é o termo "diáspora" a evocar a dispersão do povo judeu.
    Conforme consta na história, o Arquipélago dos Açores fora "encontrado" por navegadores portugueses em meados do século XV, anos antes de “descobrirem” o Brasil e começarem a explorá-lo. Deram-lhe nome de Açores, devido aos bandos de aves que sobrevoavam as ilhas, pássaro que confundiram com o açor, uma espécie de gavião do mar. Mais tarde foram entender que os bandos não eram de açores e sim de milhafres, mas pela denominação formada, o local se manteve por Arquipélago dos Açores.
    Ao habitar o novo mundo, a corrida exploratória entre Portugal e Espanha às novas terras tornou-se intensa. Os espanhóis optaram em agir pela força; os portugueses pela força e um pouquinho de esperteza, já que Açores mergulhava em problemas, ao ter suas nove ilhas superlotadas e tomadas de assalto por diversas etnias. Uma delas, a Faial, atingida por uma erupção vulcânica de grande magnitude, obrigou-se a despejar seus habitantes para as ilhas vizinhas, o que estabeleceu o caos, gerando a falta de comida, miséria, prostituição e fome, pois suas fontes de subsistência como a produção de trigo e da planta do pastel (espécie usada como corante azul em tinturaria) estavam em escassez.
    No intuito de resolver o problema, o brasileiro Alexandre de Gusmão, ministro do Rei de Portugal, que vinha negociando o plano do Tratado de Madrid na definição de limites entre as terras descobertas, participou do estudo e concepção da tomada de posse das terras brasileiras pelos portugueses. Para tanto, optou pela ocupação do solo que asseguraria o direito de propriedade, frustrando o sonho espanhol em dominá-lo, conforme vinha fazendo com seu pouco pessoal. Além disso, o brigadeiro português José da Silva Paes mantinha as construções de fortificações e idealizava maior população à Ilha de Santa Catarina, como um entreposto a outros portos ao sul. E, tão logo agravado o problema açoriano, fomentaram migração de habitantes portugueses para o Sul do Brasil, sendo a maioria de etnia não lusa continental. Alguns de ancestralidade holandesa – basta ver os de olhos azuis, açorianos aqui encontrados. Os continentais, principalmente do Porto, não vinham ao Brasil para serem empregados como trabalhadores nos campos. Eles permaneciam nas cidades, servindo pequenas indústrias ou na aprendizagem no comércio.
    O edital emitido por Sua Majestade o Rei de Portugal, proclamava regras que estabeleciam doações enumeradas de diversos bens e objetos aos trabalhadores, para as atividades nos campos – uma pá, uma enxada, um machado, uma espingarda, uma vaca leiteira... Quando aqui chegaram, receberam da listagem insignificantes apetrechos e tiveram de lidar com o suor e a criatividade, estreitando laços com os indígenas e deles tomar hábitos à própria sobrevivência.
    As sementes de trigo que trouxeram, em razoável quantidade, não se adaptaram às condições do solo, altitude e clima. E para sobreviver foram se reinventando, agregando às suas práticas culturais e de produção, as técnicas aprendidas a partir do convívio com a população negra e indígena. Do negro, além da mão-de-obra, parte essencial na economia, agregaram costumes e adaptações à fala que influenciou a cultura local, além de adotarem as festas e as danças. O cultivo da mandioca, ao ser observado na cultura dos indígenas, fora associado a uma produção mecanizada à obtenção da farinha de mandioca, com os engenhos que conceberam em projetos e os construíram. O açoriano assimilou do índio Carijó o aprendizado da confecção de cestaria em hastes de taquara ou bambu e cipó, aperfeiçoando o feitio de balaios e do covo para captura de peixes e lagostas, além da confecção de armadilhas à caça, como o mundéu, a arapuca, a esparrela, o laço e o alçapão falso. Construiu igualmente, à moda indígena, a canoa escavada num único tronco da gigante árvore garapuvu, com a qual se fazia ao mar. Mais tarde, para produção de embarcações maiores, usaram projeto de lanchas baleeiras munidas de tábuas vergadas sobre o cavername. Nas as cordoalhas de pesca era usada a corda em cânhamo e a do sisal e para o tecido de tear, o algodão produzido in loco.
    Os portugueses continentais, quando casados, principalmente do Porto, vinham ao Brasil sem suas famílias, a tentar a vida para trazê-las posteriormente. Muitos deles casavam-se aqui e por aqui ficavam.
    A luta pela sobrevivência em um dos lados sombrios da imigração, em meados do século XIX, talvez tenha sido a prostituição nos grandes centros como do Rio de Janeiro quando, muitas vezes, a falta de mulheres era suprida por rapazes, por alguns comerciantes portugueses ao se utilizarem dos “serviços” de jovens compatriotas portugueses. É o que descreveu Amilcar Filho. "Tornou-se tão intensa essa prática que o Cônsul de Portugal, barão de Moreira, em 1846, por cartas, providenciava a importação de muitas mulheres dos Açores para substituir a prostituição masculina".
    Achava-se que o povoamento açoriano terminara em 1807, conforme consta, mas em meados do mesmo século chegaram muitas mulheres açorianas, várias delas destinadas aos prostíbulos do Rio, Bahia e São Paulo, não chegando ao Sul do Brasil; o que após um tempo foi proibido. Ramalho Ortigão, em seus registros, afirma que se "passou a alertar a permissão da saída, somente de raparigas acompanhadas de familiares, já que os Açores era a parte do país que exportava maior quantidade de mulheres e trabalhadores do campo". Com a proibição houve, mais tarde, a importação de prostitutas judias, polacas e das famosas francesas. Entre diversos relatos sobre os colonizadores, consta o de uma família escandinava que migrou da Noruega para os Açores, em embarcação própria. Dos Açores, os modernos vikings seguiram a Fortaleza, norte do Brasil e alguns de seus descendentes, anos depois, partiram de Fortaleza à Ilha de Santa Catarina com uma jangada de manufatura construída pela própria família. Um de seus descendentes de sobrenome Gondin, em meados de 1800, foi provedor da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos na antiga Desterro. Em 1942, outro descendente da família, Nilson Vasco Gondin (meu amigo e colega de trabalho) alistou-se como voluntário combatente à Segunda Guerra Mundial, desembarcando em Nápoles em 1944, já promovido a sargento da Força Expedicionária Brasileira. Gondin foi um dos militares brasileiros (um ilhéu catarinense) que deu combate no campo de batalha em diversos assaltos como a tomada de Monte Castelo, Castelnuovo, Montese e Zocca, desalojando sangrentamente os alemães encastelados em picos de altos morros. Sendo que nosso herói retorna da batalha, após ter sofrido ferimentos leves por estilhaços das granadas de morteiros do fogo inimigo, recebido em terra natal como herói de guerra, condecorado inúmeras vezes.

*Um pouco da história de Gondin e outros importantes combatentes, consta no meu livro (romance) “Um Soldado à Liberdade” 


Fontes históricas: obra “As Farpas” - 1872 tomo X de José Duarte Ramalho Ortigão.
Tríbades Galantes, Fanchonos Militantes” de Amilcar T. Filho.
“Liberdade Escrita com Sangue” de Nilson Vasco Gondin.


ANIVERSÁRIO DA COLONIZAÇÃO AÇORIANA
NO LITORAL DE SANTA CATARINA
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