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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

BLUMENAU

Confunde-se com o seu rio
Pujante, que em certo estio,
Por ele subiu uma nau
Aportando à margem, em vau
Das águas, junto à clareira
De mata, onde ficou a bandeira
Do imigrante alemão
Que trocou sua Nação
Pela Nação Brasileira.

E próximo do rio corrente,
Em espraiado seminu
De matas, um pouco à frente
Fez-se o terreno excelente
 Como o perfeito lugar
Para uma colônia fundar.
E ali Blumenau nasceu,
Evoluiu e no apogeu
Tem a história singular.

História que é contada
Com uma perfeição de sobra
Em extensa e elegante obra
Sem de fora deixar nada,
A tal obra é intitulada:
“Colônia Blumenau no Sul do Brasil".
Contando a saga e o perfil
Do imigrante alemão
Nessa colonização
Refinada, mas sutil.

Hoje, a Cidade Jardim,
Cidade-Flor que encanta
Por rica beleza e tanta
Pujança, também, assim
Como a do rio que é afim
Do mar, ela faz-se  enchente
Quando chove na nascente
A transformar Blumenau
Em uma suposta nau
Ancorada em rio corrente.

Blumenau é conhecida
Pela Octorberfest e mais:
Por enchentes casuais,
Pelas flores, muita vida...
E essa obra é concebida
Com detalhes que houve em cada
Evento na empreitada
Em terra de mata virgem 
Por um povo com origem
Que dela entendia nada.

Com muito prazer informo que Gilberto Gerlach, meu colega na Academia Catarinense de Letras, estará lançando no dia 25 de setembro (quarta-feira) de 2019 às 20h, no Cinema do CIC - Centro Integrado de Cultura, à Av. Gov. Irineu Bornhausen, 5600 - Agronômica, Florianópolis, SC, o livro (800 págs.) e filme (67') "Colônia Blumenau no Sul do Brasil", com o sorteio de 5 exemplares da referida obra. Foi um trabalho realizado com esmero e cuidadosa pesquisa realizada à exaustão por Gilberto Schmidt Gerlach; Bruno Kilian Kadletz; Marcondes Marchetti e outros colaboradores. É impresso em dois volumes, verdadeiros tesouros.

Imagem contida na obra: da primeira aglomeração de casas de J.Georg Repsold e sua família no Brasil, construída em 1864, na Província de Santa Catarina, Colônia de Blumenau. Vendida para o famoso botânico e darwinis Fritz Müller. Acervo: Sammlung J. Blumenau-Niesel, Berlin - Alemanha.
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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

PROVA DE VIDA...

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Recebo uma pequena importância numerária da previdência social pública, tendo ela por lei, descontado de meus salários quando em atividade em empresa pública que me contratou como engenheiro logo que me formei. E não poderia recolher menos que certo percentual sobre o valor de vinte salários mínimos vigentes à época. O tempo passou, as coisas mudaram e percebo muitíssimo menos do que a promessa com base em vinte salários. Mas no segundo ano decorrido de minha aposentadoria houve uns meses que não me pagaram. Procurei saber o porquê e fui informado que eu não havia feito a PROVA DE VIDA e portanto me cortaram. Pensei: me deram por morto. Preenchi formulário, dois meses depois vieram os atrasados e aprendi a lição: todos os anos tenho que dar prova de estar vivo. E para não deixar passar o prazo, recomendaram-me que o fizesse no mês de meu aniversário.
Como sou leonino, acabei de chegar da instituição financeira que me paga, provando que estou vivo. Pensei: tenho um poema sobre o incerto, a incerteza, a inexorabilidade do tempo ou o fim da corrente de um rio que ante o mar se apavora. Vou postar isso no meu blog literário e o faço, pois: 


VELHICE
Autor: Laerte Tavares

Lembro que um dia alguém disse
Sendo, eu, ainda menino
Ingênuo e com pouco tino,
Que era uma “eme”, a velhice.
Hoje, eu velho, a rabugice
Faz-me ver bem ao contrário!
Velhice é o sedentário
Estágio do rio corrente
Que somos e quando, à frente,
Forma um grande estuário.

O mar, para o rio é a morte,
Mas o estuário é a largura
Maior de sua estrutura
A dar-lhe um enorme porte
Espraiado, intenso e forte,
No estágio em que teme o mar.
E assim, dá de comparar
O rio, com a vida da gente:
Estuamos de repente
Vendo o fim se aproximar.

Então, o homem maduro
Torna-se equilibrado
Por ter um enorme passado,
Um presente mais seguro
E um insondável futuro
Que dá medo do porvir
E faz ele refletir 
Diante de um fim incerto
Comparado ao mar aberto
Prenunciando o engolir.  

Sou velho, mas bem vivido
E preso a profundos laços,
Eu me extravaso em abraços
Dando à vida mais sentido
A mim e ao ente querido
Que eu abrace com calor
Por qualquer razão que for.
Isso faz a criatura
Sentir na alma mais ternura
E no coração mais amor. 

Quando eu for lançado ao mar,
Daí sim: será a “eme”!
Não sei se eu terei leme,
Bússola, sonda ou sonar,
Âncora para ancorar,
Nem se sextante e timão
Em minhas mãos estarão
Ou singrarei a deriva
Em embarcação primitiva
Sem remo e sem guarnição. 

Ao mar? Só depois de morto.
Onde eu me farei às velas?
Em águas calmas, procelas?
Singrarei em rumo torto?
Chegarei em algum porto?
Encontrarei a concórdia 
Ou abalroarei à mixórdia?
Só sei que o cais de atracada
Será um cais onde há o nada
Ou o cais da misericórdia!

Na vida, há rumo, há um norte!
Porém, eu, depois de morto
Não saberei em que porto
A minha nau de transporte
Levar-me-á pós a morte!
Por isso, em vida eu bem vivo!
Velho, mas tenho motivo
Para viver bem feliz:
Achei o amor que me quis
E o amor é o meu lenitivo! 

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

OVA DE TAINHA – IGUARIA SEM-PAR

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Quase finda a safra da tainha do corrente ano no litoral de Santa Catarina, a cobiçada ova desse peixe, em que a escassez elevou o preço aos mais altos níveis do patamar costumeiro, dá os últimos estertores de ocorrência. Nosso caviar brasileiro é apreciadíssimo, principalmente em forma de botarga, sendo a ova tratada, onde se retira o sangue, salga-se, desidrata-se em estufa e levada ao sol por até um mês, fica própria ao consumo. Assim, é iguaria sem-par aos paladares refinados, principalmente na Itália de grande demanda importadora do nosso produto. Tal técnica de preparo tem origem no Egito, já há três mil e quinhentos anos. Porém, partindo de pescadores artesanais, todo o nosso povo a consome preferencialmente frita com farinha de mandioca. Como petisco, costumam degustá-la apenas frita, acompanhada da “loira gelada” (cerveja) ou vinho.
Há em nossa cidade de Florianópolis, fundada em 1857 pelo Imperador Dom Pedro II, a Escola de Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina, que educou e educa muitos jovens a partir dos dezesseis anos de idade. O seu João Marinheiro foi um deles, que optou no fim de seus dias, pela profissão de motorista de taxi. Nessa profissão, depois conhecer o mundo em navios nos quais serviu à Marinha do Brasil, queria conhecer melhor sua cidade natal, externava ele. Era um homem falante e contador das histórias que vivenciou, muito cativante em sua fala mansa, pausada e comedida de um velho marujo cauteloso que não embarcaria em escaler furado.
Como engenheiro fiscal da Caixa Econômica Federal, tive a oportunidade de ter os serviços de seu João a serviço de minha função, por ocasião em que a Caixa o contratou para traslados comigo em vistorias de imóveis sob hipoteca daquela entidade financeira. Ah... Ouvi muitas histórias, mas uma, a da ova de tainha, eu deixo para os “experts da área” avaliarem a veracidade dela. Ele não foi pescador, foi marinheiro!
Contou-me, João Marinheiro, que seu navio atracou em porto determinado onde a safra da tainha foi farta e estava no auge. Houve um convite aos oficiais do comando da nave à festa local em que a ova de tainha com cerveja não tinha restrição à demanda gratuita. João foi junto com os convidados a serviço de um oficial, mas sem direito à bebida, apenas à comida da qual degustou algumas ovas e postas de tainhas fritas ou o peixe na brasa. Os festejos estenderam-se das onze da manhã até ao cair da tarde, com ele sóbrio e a maioria levemente alterada pelo trago etílico.
Relatou que um jovem tenente de origem nordestina do Brasil encantou-se pela ova frita. Não parava de repetir o acepipe maravilhoso. E vão mais... com a rega da cerveja... Sendo a ova muito oleosa, embora se mostre seca à deglutição, ao fim da tarde, observaram no traseiro da farda branca do tenente, em suas idas e vindas ao banheiro para descarregar a destilação do líquido, uma enorme mancha amarela oriunda de óleo de peixe que escorreu pelo intestino do eufórico glutão, sem que ele notasse o escapamento espontâneo. Tiveram que arranjar uma calça limpa ao desavisado e obrigá-lo a forçar a evacuação da excedente matéria, ao que confessou a vítima, ao final do procedimento, ter sido o produto resultante, puro óleo.