Sabe-se que a tainha é um peixe sazonal de dois quilos, em média, e vive em água doce aonde volta do oceano para a desova e criação. Aos primeiros frios do ano, quando gelam rios e lagoas, grandes cardumes migram para o mar e ao receber a água salgada purificam as vísceras e a carne a dar condição de sabor excelente, característico desse peixe.
A partir de julho, os peixes retornam às suas origens de nascimento já com os grãos das ovas fecundados, depositados sob as escamas – depois de terminado o período pesqueiro. A tainha sai pelas barras dos rios ao estuário, em milhares, lotando o litoral da costa sul brasileira, sendo em maior quantidade em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, devido à existência da Lagoa dos Patos de dimensão enorme, seu principal habitat – alguns peixes vêm também do Uruguai e do estuário do Rio da Prata.
Além de saborosíssima a tainha, sua ova é uma iguaria divina, tendo comparação ao caviar. Depois de defumada, salgada e seca é a botarga brasileira.
Na nossa ilha, no século XIX, a partir da colonização açoriana no litoral, o português teve de inventar sua maneira de pescar em maior quantidade essa espécie de cardume, por ser um peixe costeiro de ocorrência também no Mediterrâneo, mas não nas ilhas oceânicas. A partir da pesca feita pelos indígenas em canoas de um só pau, que cercavam o cardume em águas rasas com redes de fios de tucum (confeccionadas de fibras retiradas das folhas de uma determinada palmeira de nome tucum). Uma vez o cardume cercado pela rede, as tainhas eram abatidas à flecha e recolhidas uma a uma ou mesmo pegas à unha (à mão).
Conceberam os açorianos, as redes de arrasto, resistentes o suficiente para serem lançadas das canoas indígenas e puxadas da praia a encalhar na areia. E, por força humana, conseguiam capturar grandes quantidades do produto que chegavam, pelo excesso, à distribuição gratuita aos mais pobres, cuja maioria era indígena, descendente daqueles que os ensinaram a pescar – a retribuição grata e natural do intruso aos nativos.
O relato mais antigo que se tem sobre a pesca da tainha vem do aventureiro alemão Hans Staden (1525-1579), que descreveu a atividade pelos índios carijós no litoral paulista. Aqui, parte deste trabalho é baseada em obras de Vigílio Várzea, mas pesquisando História, achei outros dados interessantes. Com tal apanhado, resolvi compor um poema narrativo sobre essa pesca pelos açorianos na nossa ilha no século XIX. Poema esse constante do livro “Ilha de Idílios”. É uma narrativa comprida e meio chata, tipo espada sem corte ou fio, que não chega a matar e é cultural. Por isso aqui está aos interessados pelo tema.
Pesca de Tainha na Ilha de Santa Catarina
Autor: Laerte Tavares
Em Florianópolis, antes...
Como era de primeiro,
Começava por janeiro
A muitos dos habitantes
De profissão ou amantes
Da pescaria de tainha,
Porque o trabalho tinha
Que começar no verão,
Tendo a rede de arrastão
Pronta quando o inverno vinha.
Idílio de sol e mar,
A linda Ilha do Desterro.
Com nome eivado num erro
Que lembrava o desterrar
Um criminoso, em lugar
Tão fascinante, tão belo
E singular sem paralelo.
Na ilha, o seu habitante
Tinha um apelido bastante
Original – Amarelo.
Foce da roça ou do mar,
O povo era de serviço
De pescaria e disso
Tinha prazer, trabalhar
Em um e noutro lugar,
Fazendo parte da vida
De todos apetecida.
Não seria um mar de rosas,
Mas lhes eram prazeirosas
Tanto uma ou a outra lida.
Antes do inverno, a função
Seria o feitio das redes.
Dentro das quatro paredes,
De cada habitação.
A mulher “dava uma mão”
No serviço e ela o faz
Quando a noite traz a paz,
Sob a luz do candeeiro
Fumegante a exalar cheiro
De banha de peixe e gás.
Pomboca, era uma lamparina
Alimentada à gordura
De peixe, líquida e pura.
Sendo vasilha munida
De banha, com uma torcida
Posta em seu interior
Por pavio acendedor
De extremidade exposta
Ao exterior e disposta
À queima e dar seu fulgor.
A esposa era a fiandeira
A cochar o fio no fuso,
Ao clarão meio difuso
Da pequenina fogueira
Acesa ao fogão, à beira
Da esteira posta ao chão.
E assim, seguia o serão
Até quase madrugada.
Já no outro dia, a enxada
Ou remo por ganha-pão.
Cada família, um tanto
De rede deixava feito
Para servir de proveito
A todos. E esse manto
Virava parte de um tanto
A perfazer rede inteira,
Entralhada e à maneira
Da lida para o arrastão.
Posta na embarcação,
Já pronta, à faina pesqueira.
No inverno, a água do mar
Conserva maior calor
Que a terra. Esse fator
Faz mais rarefeito o ar
Na superfície a esquentar.
A terra, um tanto mais fria,
Com ar mais denso, o envia
À direção do oceano
Que ao receber, soberano,
Manda à terra, em ventania.
Estando as lagoas frias,
A tainha sente o frio
E vai ao mar pelo rio.
Com o rapa em ventanias
E as correntes dos rios frias
Todo o peixe vai ao mar,
De frio ameno, e ao chegar,
Afasta-se bem da costa
Por quente e, se frio, encosta
No raso, em qualquer lugar.
O vento de terra, oeste
Por onde passa regela,
Tido por rapa-canela.
A perna que não se veste
É cobaia para o teste
De que lado está ventando.
Se ventar do sul, é quando
A tainha vem à costa
E com mais frio, se encosta
O peixe com aves em bando.
Fica a ilha inteira cheia
Por toda a orla marinha
Com cardumes de tainha
Quase a encalhar na areia,
Desde Armação – da baleia,
Volta à ilha, aos Naufragados.
Vê-se por todos os lados
As canoas lanceando.
A faina só para quando
Chega agosto – por meados...
Lindo é o lanço de tainha.
Pelo aceno do vigia,
Vendo a água meio sombria,
Quer em círculo ou em linha,
Sente que ela se avizinha
Da praia chegando à beira
A estender-se à orla inteira
Próxima à arrebentação.
E eis a vez do patrão
Agir à sua maneira.
Grita, com voz abafada
Pelo silêncio exigido,
Para aguçar o ouvido
De toda a rapaziada
Que estava sem fazer nada,
Até então. E, agora,
Eis que é chegada a hora
Da companha e seus trabalhos;
E entre elogios e ralhos
Forma o grupo, sem demora.
Ao mar, a canoa aproa
Sobre dois rolos aos vaus
Feitos em esteira de paus
Sobre a areia. Então, destoa
De movediça e a canoa
Nos rolos, sem se enterrar,
É arrastada ao mar
Até ela flutuar.
Às pressas, vão revezando
Vaus e rolos. Tiram quando
A embarcação boiar.
Nessa hora, o patrão dá
Ordens para cada um;
E que tripulante algum
Desobedeça-lhe ou vá
Errar algo, pois será
Expulso de antemão,
Sem aviso e sem perdão
A não ter nada arruinado
E o sujeito sai a nado,
Jogado da embarcação.
O patrão grita: proeiro!
E ele toma o lugar.
Depois retorna a gritar
E embarca o contraproeiro.
Sota!... Voga!... Ré!... Remeiro...
Último a ir é o patrão:
Pula com o remo na mão
Com uma destreza perfeita,
Enquanto tudo se ajeita
Para armar o arrastão.
Cercam o cardume à frente,
No sentido da espia
Para onde o peixe ia
E é travado, de repente,
Quando, imediatamente,
Lançam a rede ao mar
Depois de o voga atirar
À praia a boia e o calão,
Que aos cuidados ficarão
De alguém fixo em um lugar.
Jogam chumbo e cortiça
E seguem remando apressados
E os peixes saltam, cercados,
Os objetos da cobiça.
E o patrão, a rede, iça
Para não pularem fora.
Logo, com pouca demora,
Retorna todo o cardume,
Mas o espaço se resume
E parte do magote aflora.
Com a tainha cercada,
Então é só tentear,
Tracionando-a devagar.
Toda turma aficionada
A não pensar em mais nada,
Além do próprio quinhão
Do ajudante ao patrão
Daquela faina pesqueira.
E começa a brincadeira
Na maior animação.
E o cerco fecha-se assim,
Feito um rosário de contas
O lanço, tendo suas pontas
No combro sobre o capim.
E o pessoal puxa, em fim,
Os dois cabos, de vagar
Até a rede chegar
À praia; e a arrastam à areia
Que por ter toda ela cheia
Param à beira do mar.
Pouco a pouco a rede vem
Se aproximando da praia
Para que o peixe não saia,
Cuidam e muito bem
Enquanto a tainha tem,
Que nadar contra o tecido
Da rede, já comprimido,
Onde o peixe é confinado,
Não correndo mais a nado,
Que arrastado é vencido.
E quando a manta encalha,
A tainha pula ao alto
Em desesperado salto,
A transpor-se sobre a tralha.
Para sanar essa falha
Toda a cortiça é erguida,
Fazendo parte da lida
Já programada também,
Pois a dita faina tem
Toda função definida.
Com o lanço bem mais perto
Todo o negrume, distante
Da manta, é um estonteante
Fulgor de prata coberto
Por ondas do mar aberto,
Também argento na cor
De um idêntico fulgor
Entremeado com o escuro
Que de longe era mais puro,
E ali, quase que incolor.
O arrastão forma uma saia
Ou um saco intumescido
Em um estranho tecido
De areia escura da praia
Junto a rede, antes cambraia
Quarada, e muito limpinha.
Mas com a parede de tainha
Espremida à face inteira
Escurece à maneira
Que o cardume se apinha.
E vão canoas por fora
Para levantar a tralha.
Há peixe entalado à malha,
Outro acuado, aflora
E ao tentar ir embora,
Saltando cai na canoa
Que se enche desde a proa
Até a popa altaneira.
E a atividade pesqueira
Continua numa boa.
Em terra, quase encalhado,
O magote está seguro,
Mas sempre aparece um furo
No pano da rede, achado
Pelo fujão que, a nado,
Escapa com a onda vazante.
Porém, encontra distante
Mãos de garotos espertos
Que ao ver os furos abertos
Esperam logo adiante.
Está na regra da lida,
Pegar o peixe fujão.
Ninguém fica sem quinhão,
Ninguém fica sem comida,
Pois gente desconhecida
Que ali passar, vai levar
Para o sustento do lar,
Tainha, graciosamente,
Dada por um componente
Ao ver alguém sem ganhar.
E essa grande fartura
Tem a distribuição
Para qualquer cidadão
Que se alimentar procura,
Pois sua parte assegura
Levando cheio o bornal.
E a noite, todo animal
Como cães, bichos do mato
Terão também o seu trato
Pela fartura, afinal.
Quando a rede chega em terra
Logo levantam a tralha
Da cortiça. O patrão ralha,
Gesticula, aponta e berra.
Ali, a força se encerra
Para o pano não rasgar.
Puxam-no bem de vagar
Tenteando ao mar vazante
Que pode levar avante
Todo peixe, por azar...
Tainhas seguem aos balaios,
Depositadas num monte
Lá em cima, bem defronte
Da rede, feita em lambaios,
Ante menções e ensaios
De retorná-la ao mar
Com o propósito de lavar,
Depois de tirar o peixe,
De forma que não se deixe
As ondas a enterrar.
Com trabalho duro e lento
Igual cortiço de abelha,
Esvazia-se, parelha,
A rede, com o movimento
Preciso. Nesse momento,
Erguem toda a cortiça
E a montanha roliça
Reduz-se, na areia, a nada.
Mais uma vez enrolada,
Novamente ela se ouriça.
Chega a hora do balanço
Para o montante estimado
De um e do outro lado:
– Deu vinte mili, esse lanço!
– Deu muito mai, olha o avanço
Daquele tão grandalhão!
– Eu acho quele é, então,
Do tamanho deste monte.
Por mais tainha que eu conte
Não acaba a contação!
Sai da rede e o monte aumenta
Formando uma montanha
Em lugar que o mar não banha.
E quanto mais se acrescenta.
E na rede, a cor argenta
Escurece em forma lenta
E fica esfumaçada.
Depois, já com a cor de nada,
Como se de areia pura
Colore-se toda a mistura
De tainha amontoada.
Quando fica esclarecida
A contagem aproximada,
Começa a rapaziada
Alvoroçar-se em torcida
À pesca ser dividida,
Mas não será ainda, não.
Tem lá fora a embarcação...
Pôr a rede no varal...
Só bem no fim, afinal,
Que é feita a repartição.
Em seguida, sem demora,
O montão é feito em dois:
Dos donos das redes, pois,
E o do pessoal de fora
Que é dividido, agora,
Por mais uma vez,
Que é dividida em três:
Para os que “deram uma mão”;
A parte da tripulação
E a de quem em terra se fez.
Os quatro tantos terão
Outras divisões, de novo,
Em que também ganha o povo.
O dos tripulantes são
Divididos. Cada quinhão
É dado por função tal.
A uns, o quinhão é igual;
Para outros, diferentes,
Mas todos saem contentes
E isso é o fundamental.
A maioria vai embora
Depois de vender ou dar
Várias tainhas. No lar,
Cada qual se farta, agora,
Com peixe frito na hora
Ou com a ova de tainha,
Uma iguaria fresquinha
E muito deliciosa:
Degustam-na, por oleosa,
Acompanhada à farinha.
A parte mais trabalhosa
Era a dos donos da rede,
Não tendo matado a sede
Com a cachacinha (a tinhosa)
Com dois dedinhos de prosa,
Coisa que faziam à tarde,
Do lado ao tição que arde,
Tendo que o fogo apagar
Antes de o galo cantar
No dia, o último alarde.
Carros de boi carregados
Levavam cada quinhão
Ao seu dono ou patrão.
Quase por todos os lados
Com a abundância de pescados
Recendia-se o seu cheiro.
E circulava dinheiro
Para toda aquela gente,
Além do escambo corrente:
Peixe seco – o inverno inteiro.
Resto do arrasto, na praia,
Alimenta o graxaim
E o gambá. Coisas assim
Como o cação e a arraia
Que a maré levava à raia
Do cômoro, ou mesmo à beira
Do mato, toda a sujeira
Daquele arrastão do dia.
Sobrava só ninharia
Para a bicharada inteira.
À noite havia um serão
Ao serviço de escalar
O pescado. E, em cada lar,
Faziam um mutirão.
Em enorme caldeirão
Preparavam a caldeirada
E com a lida terminada,
Cansados, iam dormir
A sonhar com o porvir,
Já no fim da madrugada.
O peixe escalado era
Estendido nos varais,
Aos pares proporcionais
Em peso e tamanho – vera
Estética, por mera
Beleza mais singular
Do produto após secar.
Amarrados, dois em dois,
Punham-nos ao sol, depois
Guardavam par sobre par.
Toda graxa ou banha era
Separada e derretida
Para a pomboca, na lida
Da vindoura primavera.
Tendo o fuso já à espera
De futura obra caseira
Da mulher sobre a esteira
A fiar embiras novas,
Por outros tipos de provas
Cochadas de outra maneira.
O produto empilhado
Ia à venda e ao consumo,
Em porções, a cada rumo,
Dependendo do mercado.
Vendido no atacado
A vários comerciantes
Locais. E para os distantes
Mercados, o peixe ia,
Qual rara mercadoria,
Por pombeiros – ambulantes.
Posta ao fogo e derretida,
A graxa torna-se o óleo
Com efeito de petróleo
Para iluminar a lida
De ter a rede tecida
Sob a luz do candeeiro
A desprender o tal cheiro
De banha de peixe e gás,
Quando a noite traz a paz,
Como era de primeiro.


