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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Pesca de Tainha na Ilha de Santa Catarina






 Imagens - Fonte Internet
 
Abertura festa tainha na praia do Campeche = Fpolis, SC

A pesca da tainha, atendendo à lei federal brasileira, tem início em 1° de maio. Na Ilha de Santa Catarina, sendo um dos eventos mais importantes à comunidade pesqueira, comparando-se com a festa da colheita no Continente Europeu.
    Sabe-se que a tainha é um peixe sazonal de dois quilos, em média, e vive em água doce aonde volta do oceano para a desova e criação. Aos primeiros frios do ano, quando gelam rios e lagoas, grandes cardumes migram para o mar e ao receber a água salgada purificam as vísceras e a carne a dar condição de sabor excelente, característico desse peixe.
    A partir de julho, os peixes retornam às suas origens de nascimento já com os grãos das ovas fecundados, depositados sob as escamas – depois de terminado o período pesqueiro. A tainha sai pelas barras dos rios ao estuário, em milhares, lotando o litoral da costa sul brasileira, sendo em maior quantidade em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, devido à existência da Lagoa dos Patos de dimensão enorme, seu principal habitat – alguns peixes vêm também do Uruguai e do estuário do Rio da Prata.
    Além de saborosíssima a tainha, sua ova é uma iguaria divina, tendo comparação ao caviar. Depois de defumada, salgada e seca é a botarga brasileira.
    Na nossa ilha, no século XIX, a partir da colonização açoriana no litoral, o português teve de inventar sua maneira de pescar em maior quantidade essa espécie de cardume, por ser um peixe costeiro de ocorrência também no Mediterrâneo, mas não nas ilhas oceânicas. A partir da pesca feita pelos indígenas em canoas de um só pau, que cercavam o cardume em águas rasas com redes de fios de tucum (confeccionadas de fibras retiradas das folhas de uma determinada palmeira de nome tucum). Uma vez o cardume cercado pela rede, as tainhas eram abatidas à flecha e recolhidas uma a uma ou mesmo pegas à unha (à mão).
    Conceberam os açorianos, as redes de arrasto, resistentes o suficiente para serem lançadas das canoas indígenas e puxadas da praia a encalhar na areia. E, por força humana, conseguiam capturar grandes quantidades do produto que chegavam, pelo excesso, à distribuição gratuita aos mais pobres, cuja maioria era indígena, descendente daqueles que os ensinaram a pescar – a retribuição grata e natural do intruso aos nativos.
    O relato mais antigo que se tem sobre a pesca da tainha vem do aventureiro alemão Hans Staden (1525-1579), que descreveu a atividade pelos índios carijós no litoral paulista. Aqui, parte deste trabalho é baseada em obras de Vigílio Várzea, mas pesquisando História, achei outros dados interessantes. Com tal apanhado, resolvi compor um poema narrativo sobre essa pesca pelos açorianos na nossa ilha no século XIX. Poema esse constante do livro “Ilha de Idílios”. É uma narrativa comprida e meio chata, tipo espada sem corte ou fio, que não chega a matar e é cultural. Por isso aqui está aos interessados pelo tema
.
 

Pesca de Tainha na Ilha de Santa Catarina 
Autor: Laerte Tavares

 

Em Florianópolis, antes...

Como era de primeiro,

Começava por janeiro

A muitos dos habitantes

De profissão ou amantes

Da pescaria de tainha,

Porque o trabalho tinha

Que começar no verão,

Tendo a rede de arrastão

Pronta quando o inverno vinha.

 

Idílio de sol e mar,

A linda Ilha do Desterro.

Com nome eivado num erro 

Que lembrava o desterrar 

Um criminoso, em lugar

Tão fascinante, tão belo

E singular sem paralelo.

Na ilha, o seu habitante

Tinha um apelido bastante

Original – Amarelo.

 

Foce da roça ou do mar,

O povo era de serviço

De pescaria e disso

Tinha prazer, trabalhar

Em um e noutro lugar,

Fazendo parte da vida

De todos apetecida.

Não seria um mar de rosas,

Mas lhes eram prazeirosas

Tanto uma ou a outra lida.

 

Antes do inverno, a função

Seria o feitio das redes.

Dentro das quatro paredes,

De cada habitação.

A mulher “dava uma mão”

No serviço e ela o faz

Quando a noite traz a paz,

Sob a luz do candeeiro

Fumegante a exalar cheiro

De banha de peixe e gás.

 

Pomboca, era uma lamparina

Alimentada à gordura

De peixe, líquida e pura.

Sendo vasilha munida

De banha, com uma torcida

Posta em seu interior

Por pavio acendedor

De extremidade exposta

Ao exterior e disposta

À queima e dar seu fulgor.

 

A esposa era a fiandeira

A cochar o fio no fuso,

Ao clarão meio difuso

Da pequenina fogueira

Acesa ao fogão, à beira

Da esteira posta ao chão.

E assim, seguia o serão

Até quase madrugada.

Já no outro dia, a enxada

Ou remo por ganha-pão.

 

Cada família, um tanto

De rede deixava feito

Para servir de proveito

A todos. E esse manto

Virava parte de um tanto

A perfazer rede inteira,

Entralhada e à maneira

Da lida para o arrastão.

Posta na embarcação,

Já pronta, à faina pesqueira.

 

No inverno, a água do mar

Conserva maior calor

Que a terra. Esse fator

Faz mais rarefeito o ar

Na superfície a esquentar.

A terra, um tanto mais fria,

Com ar mais denso, o envia

À direção do oceano

Que ao receber, soberano,

Manda à terra, em ventania.

 

Estando as lagoas frias,

A tainha sente o frio

E vai ao mar pelo rio.

Com o rapa em ventanias

E as correntes dos rios frias

Todo o peixe vai ao mar,

De frio ameno, e ao chegar,

Afasta-se bem da costa

Por quente e, se frio, encosta

No raso, em qualquer lugar. 

 

O vento de terra, oeste

Por onde passa regela,

Tido por rapa-canela.

A perna que não se veste

É cobaia para o teste

De que lado está ventando.

Se ventar do sul, é quando

A tainha vem à costa 

 E com mais frio, se encosta

O peixe com aves em bando.


Fica a ilha inteira cheia

Por toda a orla marinha

Com cardumes de tainha

Quase a encalhar na areia,

Desde Armação – da baleia,

Volta à ilha, aos Naufragados.

Vê-se por todos os lados

As canoas lanceando.

A faina só para quando

Chega agosto – por meados...

 

Lindo é o lanço de tainha.

Pelo aceno do vigia,

Vendo a água meio sombria,

Quer em círculo ou em linha,

Sente que ela se avizinha 

Da praia chegando à beira

A estender-se à orla inteira

Próxima à arrebentação.

E eis a vez do patrão

Agir à sua maneira.

 

Grita, com voz abafada

Pelo silêncio exigido,

Para aguçar o ouvido

De toda a rapaziada

Que estava sem fazer nada,

Até então. E, agora,

Eis que é chegada a hora

Da companha e seus trabalhos;

E entre elogios e ralhos

Forma o grupo, sem demora.

 

Ao mar, a canoa aproa

Sobre dois rolos aos vaus

Feitos em esteira de paus

Sobre a areia. Então, destoa

De movediça e a canoa

Nos rolos, sem se enterrar,

É arrastada ao mar

Até ela flutuar.

Às pressas, vão revezando

Vaus e rolos. Tiram quando

A embarcação boiar.

 

Nessa hora, o patrão dá

Ordens para cada um;

E que tripulante algum

Desobedeça-lhe ou vá

Errar algo, pois será

Expulso de antemão,

Sem aviso e sem perdão

A não ter nada arruinado

E o sujeito sai a nado,

Jogado da embarcação.

 

O patrão grita: proeiro!

E ele toma o lugar.

Depois retorna a gritar

E embarca o contraproeiro.

Sota!... Voga!... Ré!... Remeiro...

Último a ir é o patrão:

Pula com o remo na mão

Com uma destreza perfeita,

Enquanto tudo se ajeita

Para armar o arrastão.

 

Cercam o cardume à frente,

No sentido da espia

Para onde o peixe ia

E é travado, de repente,

Quando, imediatamente,

Lançam a rede ao mar

Depois de o voga atirar

À praia a boia e o calão,

Que aos cuidados ficarão

De alguém fixo em um lugar.

 

Jogam chumbo e cortiça

E seguem remando apressados

E os peixes saltam, cercados,

Os objetos da cobiça.

E o patrão, a rede, iça

Para não pularem fora.

Logo, com pouca demora,

Retorna todo o cardume,

Mas o espaço se resume

E parte do magote aflora.

 

Com a tainha cercada,

Então é só tentear,

Tracionando-a devagar.

Toda turma aficionada

A não pensar em mais nada,

Além do próprio quinhão

Do ajudante ao patrão

Daquela faina pesqueira.

E começa a brincadeira

Na maior animação.

 

E o cerco fecha-se assim,

Feito um rosário de contas

O lanço, tendo suas pontas

No combro sobre o capim.

E o pessoal puxa, em fim,

Os dois cabos, de vagar

Até a rede chegar

À praia; e a arrastam à areia

Que por ter toda ela cheia

Param à beira do mar.

 

Pouco a pouco a rede vem

Se aproximando da praia

Para que o peixe não saia,

Cuidam e muito bem

Enquanto a tainha tem,

Que nadar contra o tecido

Da rede, já comprimido,

Onde o peixe é confinado,

Não correndo mais a nado,

Que arrastado é vencido.

 

E quando a manta encalha,

A tainha pula ao alto

Em desesperado salto,

A transpor-se sobre a tralha.

Para sanar essa falha

Toda a cortiça é erguida,

Fazendo parte da lida

Já programada também,

Pois a dita faina tem

Toda função definida.

 

Com o lanço bem mais perto

Todo o negrume, distante

Da manta, é um estonteante

Fulgor de prata coberto

Por ondas do mar aberto,

Também argento na cor

De um idêntico fulgor

Entremeado com o escuro

Que de longe era mais puro,

E ali, quase que incolor.

 

O arrastão forma uma saia

Ou um saco intumescido

Em um estranho tecido

De areia escura da praia

Junto a rede, antes cambraia

Quarada, e muito limpinha.

Mas com a parede de tainha

Espremida à face inteira

Escurece à maneira

Que o cardume se apinha.

 

E vão canoas por fora

Para levantar a tralha.

Há peixe entalado à malha,

Outro acuado, aflora

E ao tentar ir embora,

Saltando cai na canoa

Que se enche desde a proa

Até a popa altaneira.

E a atividade pesqueira

Continua numa boa.

 

Em terra, quase encalhado,

O magote está seguro,

Mas sempre aparece um furo

No pano da rede, achado

Pelo fujão que, a nado,

Escapa com a onda vazante.

Porém, encontra distante

Mãos de garotos espertos

Que ao ver os furos abertos

Esperam logo adiante.

 

Está na regra da lida,

Pegar o peixe fujão.

Ninguém fica sem quinhão,

Ninguém fica sem comida,

Pois gente desconhecida

Que ali passar, vai levar

Para o sustento do lar,

Tainha, graciosamente,

Dada por um componente

Ao ver alguém sem ganhar.

 

E essa grande fartura

Tem a distribuição

Para qualquer cidadão

Que se alimentar procura,

Pois sua parte assegura

Levando cheio o bornal.

E a noite, todo animal

Como cães, bichos do mato

Terão também o seu trato

Pela fartura, afinal.

 

Quando a rede chega em terra

Logo levantam a tralha

Da cortiça. O patrão ralha,

Gesticula, aponta e berra.

Ali, a força se encerra

Para o pano não rasgar.

Puxam-no bem de vagar

Tenteando ao mar vazante

Que pode levar avante

Todo peixe, por azar...

 

Tainhas seguem aos balaios,

Depositadas num monte

Lá em cima, bem defronte

Da rede, feita em lambaios,

Ante menções e ensaios

De retorná-la ao mar

Com o propósito de lavar,

Depois de tirar o peixe,

De forma que não se deixe

As ondas a enterrar.

 

Com trabalho duro e lento

Igual cortiço de abelha,

Esvazia-se, parelha,

A rede, com o movimento

Preciso. Nesse momento,

Erguem toda a cortiça

E a montanha roliça

Reduz-se, na areia, a nada.

Mais uma vez enrolada,

Novamente ela se ouriça.

 

Chega a hora do balanço

Para o montante estimado

De um e do outro lado:

– Deu vinte mili, esse lanço!

– Deu muito mai, olha o avanço

Daquele tão grandalhão!

– Eu acho quele é, então,

Do tamanho deste monte.

Por mais tainha que eu conte

Não acaba a contação!

 

Sai da rede e o monte aumenta

Formando uma montanha

Em lugar que o mar não banha.

E quanto mais se acrescenta.

 E na rede, a cor argenta

Escurece em forma lenta

E fica esfumaçada.

Depois, já com a cor de nada,

Como se de areia pura

Colore-se toda a mistura

De tainha amontoada.

 

Quando fica esclarecida

A contagem aproximada,

Começa a rapaziada

Alvoroçar-se em torcida

À pesca ser dividida,

Mas não será ainda, não.

Tem lá fora a embarcação...

Pôr a rede no varal...

Só bem no fim, afinal,

Que é feita a repartição.

 

Em seguida, sem demora,

O montão é feito em dois:

Dos donos das redes, pois,

E o do pessoal de fora

Que é dividido, agora,

Por mais uma vez,

Que é dividida em três:

Para os que “deram uma mão”;

A parte da tripulação

E a de quem em terra se fez.

 

Os quatro tantos terão

Outras divisões, de novo,

Em que também ganha o povo.

O dos tripulantes são

Divididos. Cada quinhão

É dado por função tal.

A uns, o quinhão é igual;

Para outros, diferentes,

Mas todos saem contentes

E isso é o fundamental.

 

A maioria vai embora

Depois de vender ou dar

Várias tainhas. No lar,

Cada qual se farta, agora,

Com peixe frito na hora

Ou com a ova de tainha,

Uma iguaria fresquinha

E muito deliciosa:

Degustam-na, por oleosa,

Acompanhada à farinha.

 

A parte mais trabalhosa

Era a dos donos da rede,

Não tendo matado a sede

Com a cachacinha (a tinhosa)

Com dois dedinhos de prosa,

Coisa que faziam à tarde,

Do lado ao tição que arde,

Tendo que o fogo apagar

Antes de o galo cantar

No dia, o último alarde.

 

Carros de boi carregados

Levavam cada quinhão

Ao seu dono ou patrão.

Quase por todos os lados

Com a abundância de pescados

Recendia-se o seu cheiro.

E circulava dinheiro

Para toda aquela gente,

Além do escambo corrente:

Peixe seco – o inverno inteiro.

 

Resto do arrasto, na praia,

Alimenta o graxaim

E o gambá. Coisas assim

Como o cação e a arraia

Que a maré levava à raia

Do cômoro, ou mesmo à beira

Do mato, toda a sujeira

Daquele arrastão do dia.

Sobrava só ninharia

Para a bicharada inteira.

 

À noite havia um serão

Ao serviço de escalar

O pescado. E, em cada lar,

Faziam um mutirão.

Em enorme caldeirão

Preparavam a caldeirada

E com a lida terminada,

Cansados, iam dormir

A sonhar com o porvir,

Já no fim da madrugada.

 

O peixe escalado era

Estendido nos varais,

Aos pares proporcionais

Em peso e tamanho – vera

Estética, por mera

Beleza mais singular

Do produto após secar.

Amarrados, dois em dois,

Punham-nos ao sol, depois

Guardavam par sobre par.

 

Toda graxa ou banha era

Separada e derretida

Para a pomboca, na lida

Da vindoura primavera.

Tendo o fuso já à espera

De futura obra caseira

Da mulher sobre a esteira

A fiar embiras novas,

Por outros tipos de provas

Cochadas de outra maneira.

 

O produto empilhado

Ia à venda e ao consumo,

Em porções, a cada rumo,

Dependendo do mercado.

Vendido no atacado

A vários comerciantes

Locais. E para os distantes

Mercados, o peixe ia,

Qual rara mercadoria,

Por pombeiros – ambulantes.

 

Posta ao fogo e derretida,

A graxa torna-se o óleo

Com efeito de petróleo

Para iluminar a lida

De ter a rede tecida

Sob a luz do candeeiro

A desprender o tal cheiro

De banha de peixe e gás,

Quando a noite traz a paz,

Como era de primeiro.