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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O PADRE QUE NÃO CONHECIA DEUS

Ao ver certo vaso de orquídea florir, em dezembro, não resisti em postar um conto que escrevi há algum tempo.

Foto - Internet

Ele era um jovem recém-ordenado sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, designado na função de professor de Ciências Naturais a um colégio da minha cidade. Empolgou-se tanto pela beleza e a natureza da bela ilha catarinense que se tornou como paleontólogo, um grande investigador dos mais remotos sítios locais onde coletava fósseis. Circulava em um jipe adaptado com molas reforçadas que elevavam a carroceria do veículo em relação ao rodado, dando certa altivez ao carro que se compatibilizava a uma altura avantajada e robustez do padre Müller, alemão de origem suíça.
As inúmeras investigações e coletas de materiais agigantaram-se ao longo de uns trinta anos, o que o levou a criar um museu anexo ao colégio no qual trabalhava. Na busca pelo material científico, o padre encontrava em suas andanças, magníficas orquídeas e as catalogava, reunindo uma significativa coleção.
Conheci o religioso como orquidófilo, por eu também ser um admirador de orquídeas e possuir algumas, já que o clima da ilha é propício ao cultivo da espécie, pois pouco cuidado exige. Basta deixá-la em local sombreado e com alguma umidade - ambiente necessário e suficiente para eternizar a existência e a reprodução das plantas; sendo que o padre mantinha-as num enorme orquidário, sob frondosas árvores seculares, nas dependências do estabelecimento de ensino, local em que seguidas vezes fui visitar.
O tempo passou, Müller adoeceu, e por grande zelo tido às suas plantas, dificilmente sedia qualquer muda que fosse. Eu era fascinado por diversos exemplares das raras espécies vistas apenas em seu orquidário, as quais por insistência, ele prometeu-me ceder uma ou outra à época do replantio.
Num fim de tarde, padre Baron, diretor do colégio e primo sanguíneo de Müller, telefonou-me avisando da chegada do tempo de replantio das orquídeas; e que eu fosse lá, a pedido do orquidófilo, pegar certas mudas que ele havia reservado. E à noitinha fui me haver com o padre Müller.
Bati à porta de seus aposentos e veio ele atender. Sem vê-lo há bastante tempo, estranhei a decrepitude de seu estado físico. O homem forte, comparado a um touro selvagem, ali esquálido parecia um terneiro desmamado e trôpego. Como se fosse um balão inflado à plenitude e estourasse - remanescia apenas em arcabouço de suas formas. Ele constituía-se em uma sombra magra curvada, portando a mão esquerda sobre o alto-ventre, levemente abaixo do abdome superior, enquanto me estendia a mão direita retirada vagarosamente da maçaneta da porta, cumprimentando-me com voz plangente e rouca pelo cansaço. Imediatamente, perguntei o que lhe havia acontecido. Ao certificar que ele estava com câncer e a sua existência, quase em estado terminal,  arrepiei-me...
Ao entrar no quarto, senti um inconfundível cheiro de álcool, e conhecendo o professor como abstêmio, imaginei ser a imersão de algum pequeno animal em conservação aos seus estudos. Mas ele explicou-me estar a inalar vapor de álcool para aplacar sua intensa dor, obtido pelo auxílio de uma toalha embebida à saturação total de etanol. Logo percebi ter de desistir da minha segunda intenção, além da busca por mudas de orquídeas – que seria uma confissão superficial de meus pecados, tendo em vista que meu filho faria, em breve, a Primeira Eucaristia e eu que há tempo não confessava, precisando tomar a hóstia consagrada junto a ele, pensei aproveitar a oportunidade a ver-me livre da obrigação cristã relegada. Já disposto a abandonar o segundo propósito, um impulso veio-me ao intento. Falei ao religioso do propósito em me confessar, mas não em confissão ortodoxa, e sim numa simples conversa entre dois amigos. Em sua retidão prussiana respondeu-me que se eu quisesse confessar ele apanharia a estola para o Sacramento, o que fez em um passo de mágica, alcançando de algum lugar uma faixa de cor desbotada pelo tempo, em tecido brilhoso já carcomido ostentando uma cruz em cada extremidade que se tornava um pouco mais larga, a qual trançou por detrás do pescoço. Em ato a se pôr de joelhos, eu o paralisei com uma negação.
E voltamos à conversa descontraída, confidenciei a ele de que eu não me achava digno de confessar e tomar a Eucaristia por estar, depois de longo tempo na trilha de devoto cristão fervoroso, meio descrente de tudo, visto que até mesmo, chegava a duvidar da real existência Divina. Porque Deus, na minha visão, seria uma espécie de mão grande, um todo poderoso alienígena como um espírito feito de antimatéria, ou supostamente um grande general que após vencer todas as guerras do universo, reinava absoluto e soberano já sem vontade para subjugar os vencidos, devido à extraordinária superioridade diante dos medíocres ou míseros outros elementos das diversas galáxias, e docilmente procurava apenas ajudar os fracos, por isso seria a hora dele, quem sabe, agarrar-se a esse suposto deus.
Dito aquilo, o padre Müller emocionado, confessou-me ser padre há quarenta e tantos anos, mas desde menino procurava por uma visualização de Deus a fim de ilustrar a sua crença, sem conseguir vislumbrar algo relativo ao que buscava. E que eu, naquele momento, estava sendo a ele um anjo que veio e o apresentou um deus concebido, pronto e acabado não em forma, porém, conforme a simplicidade de alma que eu tinha, sendo a minha fé inabalável e extraordinária.
Sem querer, já sentados, segurei a mão esquerda do padre, beijei-a com ternura e choramos juntos. Terminada a forte emoção nos ajoelhamos frontalmente. Ele persignou-se, beijou uma das pontas da estola e em seguida eu proferi, ao benzer-me: Padre dê-me a vossa bênção porque pequei. Os meus pecados são...
Duas semanas depois, de volta de uma viagem habitual de serviço, tive a notícia de que o padre Müller tinha falecido, então fui à capela do colégio participar da missa de sétimo dia e rezar por sua alma. Foi quando me senti junto de Deus e do padre Müller pela última vez, mas com uma das suas orquídeas (a mais rara), com a qual ainda converso de vez em quando, convencendo-a a florir maravilhosamente e ela sempre me atende em dezembro para encanto meu, da família e de amigos.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

MINHA ILHA E MEU VINHO

    Amigos, vivo em uma ilha que, desculpem a água na boca, mas é ela de um esplendor e beleza sem-par. Amo a Ilha de Santa Catarina como o vinho que degusto diariamente. São minhas paixões, menores, depois de o amor pela família e amigos, mas são duas paixões frenéticas que arrebatam e me levam por rotas luminosas a grandes êxtases da alma. Assim, quando me dou conta, a razão me acorda e, então, deduzo por quais caminhos palmilhei no devaneio.

    Eis que está chegando o verão e com as sessenta e tantas praias à disposição, seria impossível deixar de sair e brindar o calor com a gelada cerveja ou o chope geladinho. Aí está a ira - faltar com a fidelidade ao terno vinho tinto, primazia minha. E, na falta da eterna lealdade canina, quero homenagear o doce amigo com dois pequenos poemetos para brindar nosso verão, que dezembro o trará de direito.

    Aproveito o ensejo para erguer a taça à Rachel de Queiroz, grande escritora brasileira que eu muito lia, obras suas, na juventude. Hoje, a saudosa imortal completa seu 107º (centésimo sétimo) aniversário -  primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras. Um brinde à Raquel, escritora!...

Uma das mais desertas praias de nossa ilha - foto da web


IN VINO VERITAS I


In vino veritas – verdade que assisto!
Pois quando o vinho alma e mente invade,
Transfere ao ser a total liberdade
Aos sentidos e ao amor, ao visto.

Bebeu Tibério; também tomou Cristo,
O vinho às suas mãos e, em verdade,
Fez dele o próprio sangue da Deidade,
Deu graças, ordenando: fazei isto...

Eu tomo à mão a taça o casto vinho,
Sem procurar verdade, e adivinho
O que sem ele jamais saberia.

Na reclusão, não estando sozinho,
Absorvendo-o com afeto e carinho
Sinto: Verita est a doce fantasia.
     Autor: Laerte S. Tavares

IN VINO VERITAS II


Tomo do vinho, enigma do amor
Como alimento da embriaguez
Do ébrio coração que, pois se fez
Por próprio gosto, feliz ao torpor.

Se feito ao vinho, enigma for,
Ao coração a plena lucidez,
Tudo é mistério e será talvez
Mistério, a condição de sonhador.

In vino veritas – onde há a mentira?
O amor é uma verdade que delira
Em nossa mente, quer alegre ou triste.

Por isto, quando bebo, tenho em mira
Fazer o amor vibrar ao som da lira
De uma opereta que minha alma assiste.
 Autor: Laerte S. Tavares