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terça-feira, 4 de outubro de 2016

DIA DE SÃO FRANCISCO

Nada mais apropriado do que este dia para postar uma crônica que escrevi ontem - é dando que se recebe, mas em contraposição, ontem recebi uma homenagem de mão única. Vejam e depois analisem porque me sensibilizei tanto. 


O DRIBLE À CAMA


      Meu filho de dez anos é um futebolista contumaz e quanto mais treina, no apartamento, menos aprende. Joga muito bem na quadra. Ontem, num amistoso em seus aposentos, deu um drible no pé do leito em que dorme e um chute na bola acertando o espaldar da mesma cama, que o fez rodopiar e pedir socorro. Horas depois estávamos sua mãe e eu frente à clínica ortopédica levando-o aos exames médico e de raios X. O esculápio examinou seu pezinho direito e nos encaminhou à sessão de quatro chapas radiográficas. Teria sido apenas uma lesão grave na cartilagem de crescimento (o tenro osso em formação). Fazia-se necessária e suficiente a imobilização de seu pé e perna até à altura do joelho. E de lá saímos – ele de bota branca e muletas alugadas.
O drama começaria já da porta da clínica à diante. Desde as manobras para entrar no carro, às atividades menos comuns, o pouca prática sofreu. Em casa, após o test drive, ele começou o treinamento como piloto de provas das novas muletas Mercur que, pasmem, até prazo de validade de uso elas têm. Inseguro como cachorro em canoa, se equilibrava aos pinotes, com a perna imobilizada suspensa, e nas freadas bruscas, a inércia de movimento o lançava à frente para uma nova tomada de equilíbrio, mas caminhava.
No dia seguinte à ida ao colégio que dista apenas dois quarteirões de nosso prédio, seria uma odisseia. Fiz um balão para deixá-lo com a mãe na frente ao estabelecimento à aula de inglês da manhã, almoçar na cantina no térreo (descer as escadas do mezanino, que sua mãe o ajudaria a galgar), e à tarde tomaria o elevador às aulas regulares no terceiro piso. Eu iria em seu socorro na hora do almoço a ajudá-lo conduzir bandeja, a ir ao banheiro à higiene bucal...
Vinte para o meio-dia, eu lá de plantão e o Arthur me surpreende montado às costas de um amiguinho da idade dele, mas ao contrário do meu filho magricela, o outro garoto parecia um frango de granja alimentado a fermento (no bom sentido), forte feito Hércules. Chamava-se Alexandre e o tratei de Alexandre o Magnum. Arthur saltou de suas costas, já fazendo malabarismos em uma perna só e rodopiando as muletas como bastões de artes marciais. O Alexandre Magno me mandou embora, pois ele custodiaria o seu amigo, no que fosse necessário. Dito isso, já havia ao seu redor mais uns dez meninos e meninas confirmando a solidariedade e apreço ao engessado.
Perdi a caminhada ao colégio, mas ganhei um ânimo novo, confiante que esta geração é e será mais humana; pelo menos cada uma daquelas crianças deu tal demonstração de grandeza. E no caminho de volta para casa, não conseguia me desconectar da magnanimidade do Magnum Alexandre, da pequenez de estatura dos infantes e a grandiosidade de suas alminhas que me gratificaram a alma, ora absorta e exultante a me fazer sorrir à toa, pelas calçadas entre transeuntes anônimos que me cumprimentavam como aos velhos amigos, retribuindo meu sorriso velado. Acredito ter contagiado muita gente com a minha alegria recebida dos garotos.


 

4 comentários:

  1. Que lindo conto e como é bom poder ver esperança n, confiança de algo melhor nessa nova geração! Legal! abraço,chica

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  2. Obrigado, Chica! Que os seus céus nos abençoem. Abraço fraterno. Laerte.

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  3. Que linda mensagem trouxe com este conto em referencia à São Francisco de Assis. Esta ação/emoção me fez lembrar uma máxima de que um amigo nunca pesa.
    Emocionante poeta construtor.
    Abraços.

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  4. A esperança sempre depositamos nas crianças, talvez por isso São Francisco é o protetor dos animais, pois eles representam a inocência e a confiança perante ao adulto. Penso que é nosso dever auxiliar a criança ao que refere ao conhecimento para que ela aprenda "ler o mundo" como dizia P. Freire, mas de forma racional. Abraços!!!

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