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domingo, 12 de fevereiro de 2017

O TUBARÃO CACHORRO


Armação do Itapocoróy, Penha, SC, Brasil
Sempre que retorno das férias gozadas em minha terra natal, volto mais rico de conhecimentos, histórias e causos lá ouvido de integrantes do meu povo, em que há diletos amigos de infância, pescadores artesanais, cujas amizades cultivo, cultuo e me orgulham muito. Desta vez confirmei veracidade de história que eu já conhecia, não com um pescador, mas com um emérito escritor, membro da Academia de Letras do Brasil, com mais de trinta livros editados, Cláudio Bersi de Souza. O personagem da história é o nosso tio João Nepomuceno de Souza, já que Cláudio e eu somos primos. O caso ocorreu aproximadamente na década de quarenta dos anos de mil e novecentos, lá em Armação do Itapocoróy, Penha, Santa Catarina, Brasil.
João costumava pescar sem camarada. Isto é: pescava sozinho. Contava com a ajuda da força de um madrugador para colocar sua canoa, feita de um só tronco de guapuruvu ao mar, e lá ia ele à força do remo de pá ao encontro das presas, cerca de duas milhas da praia. Já levava iscado o seu espinhel fino de uns duzentos anzóis na balaia, o fundeava um pouco mais em terra, remava mais para fora e ficava a pescar, então, em águas mais profundas. Lançava a linha de mão, grossa, e anzol grande iscado com combreia ou enguia no intuito de pegar um peixe maior como mero, cherne, cação-mangona ou um  cação-cambeva considerado o mais saboroso e tenro tubarão. Só para recordar: aos pescadores, “cação é o tubarão que a gente come e tubarão é o cação que come a gente”. Pois bem, passadas horas, retornava com o que conseguia capturar de linha e colhendo o espinhel com o produto da sua pesca, chegava ao porto, em horário próximo ao meio-dia para o almoço lauto, mas simples a ele.
Certa manhã de sol e brisa mansa, em mais uma pescaria, lançou seu espinhel com um velador grande a enxergar de longe e remou mais distante para tentar a sorte. Fundeou a canoa com uma poita pequena, deixando o cabo bem curto quase a prumo, e jogou o anzol grande munido de isca com quase metade de uma enguia. O tempo passava sem qualquer beliscada na isca da linha e se distraia com algumas palombetas miúdas que ia desferrando do anzol pequeno de seu caniço curto. De repente a linha trançada no banco do meio tesou e quase emborcou a canoa. Ele, imediatamente guardou o caniço e deu linha ao peixe grande que tentava arrastar pela popa a embarcação fundeada com a amarra na proa. A luta estendeu-se por bem uns quarenta e cinco minutos, entre o lobo do mar solitário e o enigmático peixe enorme. Ora seu João soltava corda de amarra ancorada na poita e colhia linha de pesca, ora dava linha e colhia cabo de amarra da âncora, para cansar a presa, mas ela não perdia força. Com o passar do tempo, energias de ambos iam se esvaindo. Finalmente, a capitulação ou preito do vencido e a expectativa de triunfo do pescador cansado, que pôde recolher a poita e deixar a presa ir conduzindo a canoa a seu bel prazer, que casualmente, era em caminho de terra, em direção ao velador do espinhel fundeado. E pouco a pouco, tio João colhia a linha sem que o peixe percebesse, pois se sentisse, o pescador não teria mais forças para o embate à fraca energia do oponente. Próximo à costa e à boia de fora do espinhel, o peixe estava quase na borda da canoa, embora tomando profundidade na água turva pela lestada da semana anterior que tinha deixado o mar com marolas enormes. A cada onda que vinha, a canoa pendia e quase bebia água pela borda tracionada à força ou peso da presa, contrabalançada pelo contrapeso de seu João no bordo oposto.  Mais de uma hora, depois de ferrado, o tubarão surgiu à flor da água há poucos metros da embarcação e deu de ver seu grande porte e para que o pescador arquitetasse o seu embarque na pequena canoa. É sabido que se fizer o tubarão andar de ré, ele solta o estômago pela boca e morre, por isso, a fim de liquidá-lo, tentam o laçar ou bucheirar pelo rabo, tracionando-o na direção contrária ao seu seguimento natural. Outra forma de vencê-lo é bucheirá-lo pela boca, tracionar à borda da embarcação e golpear sua cabeça, mutilando seu cérebro.
Tio João, com as poucas forças que lhe sobravam, o trouxe à borda e amarrou a linha no banco do meio. Munido com o porrete de ipê caçaranha na mão direita e o cabo do bucheiro de um anzol enorme e cordoalha solidária ao cabo do mesmo amarrada ao banco de proa, na mão esquerda, conseguiu ferrar com o bucheiro o canto da boca do tubarão que reconheceu ser uma mangona. Deu tensão à cordoalha amarrada ao banco de proa e desfechou várias bordoadas ao crânio do animal, que pareceu desfalecido. Deixando a borda quase ao nível da água, com muitíssimo esforço conseguiu embarcar o peixe. Estimou que pesava uns sessenta quilos.
Semi-desfalecida a mangona agonizava no fundo da embarcação, enquanto ele remava, para colher o espinhel, posicionado atrás do bicho. De repente, o animal deu um pinote a quase cair ao mar, voltando-se em sentido inverso de cento e oitenta graus ao fundo da embarcação e abocanhou a perna do tio João que não conseguia desvencilhar-se daquela bocarra, parecendo ter dado o último suspiro.
Esqueceu espinhel e todo o resto, e remou pacientemente até ao porto com a mangona agarrada à sua panturrilha esquerda, onde o socorreram e conseguiram abrir a boca do tubarão.
Eu conheci o tio João da tia Mariquinha, como o chamavam, já velho, mancando, e lembro que quando arregaçava a perna da calça para entrar no mar, à meia canela, notava-se a falta da barriga da perna esquerda, seca como perna de pau.


26 comentários:

  1. Um homem de coragem, seu tio João.
    Um abraço e uma boa semana

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    1. Obrigado pela visita, amiga Elvira! Grande abraço e boa semana. Laerte.

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  2. Laerte, depois de ler O tubarão cachorro não posso ter dúvida de que as férias passadas na tua terra natal rendem sabedoria e inspiração. Para quem tiver dúvida do que afirmo, tirem-na com a leitura dessa ótima história, contada com fluidez de quem domina a técnica da narrativa.
    Claro que para quem conhece pouco do mar, como eu, dos que o habitam, e também de todas as manhas relacionadas a arte da pesca, e tudo o que envolve o ato de pescar, tem que fazer essa leitura com mais vagar, para que tudo fique entendido.
    Gostei muito dessa história, meu amigo.
    Um grande abraço.

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    1. Meu Caríssimo Pedro Luso, tu és muito gentil a me insuflar o ânimo para continuar escrevendo, mas muito tenho que lapidar meu ofício. Procuro a cada dia ser mais claro e lógico em meus textos, contudo é difícil escrever bem. Tendo amigos como tu e outros tantos que me dão ânimo, irei adiante na trilha de vocês que escrevem tão bem. Minha gratidão e meu efusivo abraço. Laerte.

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  3. Gostei de conhecer a vida, um bocado da vida, de um lobo do mar.
    Aquele abraço, boa semana

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  4. Grande amigo Pedro Coimbra, ilustre causídico (como dizem por cá), é sempre uma honra imensa ler suas palavras aqui e satisfação enorme em ver que o amigo leu a história inteira que imaginei ser meio "tipo espada", comprida e chata... Eis que me dei conta que lobo-do-mar é um animal marinho e lobo do mar é um marinheiro velho. Minha gratidão, meu amigo! Grande abraço. Laerte.

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  5. Gostei imenso de ler esta história muito bem contada, com um vocabulário muito rico. Por vezes lembrei-me do livro "o velho e o mar" de Hemingway... Gente valente que anda no mar...
    Uma boa semana.
    Beijos.

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    1. Sim Graça, são os descendentes portugueses dos açores que devem trazer no sangue o "navegar é preciso, viver não é preciso". Lá, nessa época morriam muitos pescadores em naufrágios corriqueiros. Muito obrigado. Grande abraço. Laerte.

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  6. Uma narrativa muito interessante, com factos muito bem descritos e escritos...
    Talvez um descendente dos velhos lobos do mar que em tempos
    remotos pescavam baleias - nas nossas ilhas - mister indispensável ao seu sustento e de suas famílias...
    Laerte, gostei muito e aprecio este género de relatos de glórias de heróis anónimos.
    Uma semana especialmente amorosa, amigo.
    Abraço.
    ~~~

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    1. Minha gratidão, Majo! São sim, os nossos ancestrais dos Açores - intrépidos pescadores que não tinham medo de nada e desafiavam a vida e a morte o tempo inteiro para o sustento da família que ficava a rezar na beira da praia quando o pescador não chegava ao tempo estimado. Grande abraço. Laerte.

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  7. Impressionante, Laerte, como lendo os amigos, suas histórias tão bem contadas, voltam nossas recordações de infância, de adolescência. Esse teu ótimo texto me fez lembrar de meu pai, seu maior prazer era pescar, deixar as tensões da semana no mar, pescando, segundo ele, enormes peixes, criava suas histórias e vinha direto me contar, só porque eu escutava e ria, ria... Claro, fomos inúmeras, incontáveis vezes pescar nos Molhes de Rio Grande, no mar em Tramandaí etc. Dizia ele que era o Homem do mar! Tinha paixão. E essa tua bela história me trouxe recordações tão lindas...e saudades. Agradeça lá seu tio João!! Sinto pela sua perna...
    Grande abraço, amigo!

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    1. Valeu, Tais! E lembrei-me, pela história de teu pai médico e pescador, de uma décima que fiz sobre o pescador profissional que levava turistas à pescaria e no fim ele chegou a conclusão que tinha a melhor vida do mundo, pois os ricaços queriam fazer por prazer o que ele fazia diariamente... Porém àquele tempo a faina marítima matou muitos pescadores. Eram intrépidos heróis que saíam e não sabiam se iriam voltar. Os naufrágios eram inúmeros. Mas claro que uma pescaria sem riscos é tudo de bom. Grande abraço. Laerte.

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  8. Pois é amigo, nem sempre se pode acreditar em
    tudo o que nos dizem. Sofreu bem as consequências.
    Gostei de ler.

    Um abraço, amigo.
    Irene Alves

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    1. Estive no seu blog recomendado. Legal rever os papéis antigo e assumir o papel do presente para sonhar. Obrigado pela visita. Tudo de bom. Laerte.

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  9. Interessante postar neste espaço, comentário por e-mail de Cláudio Bersi de Souza, relativo a um tubarão-anequim que à época do fato aqui registrado, foi pescado por Romeu Custódio, lá também. "Era um animal tão grande que não conseguiram embarcar na baleeira, inteiro e os quatro tripulantes o esquartejaram à borda da lancha, para embarcá-lo. Somente o fígado do animal, vendido para remédio ao laboratório Andrômaco, pesou 11 arrobas, 165kg. Foi o maior tubarão capturado naquela região, que se tem notícia".

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  10. Olá Silo
    você narrou lindamente.
    Gostei muito.

    Abraço

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    1. Obrigado, Fernanda! Que bom que gostou, assim como gostei imensamente do teu espaço. Cordialmente. Laerte (Silo).

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  11. Surpreso mas agradado com a sua visita.
    Gostei do estilo do comentário.
    ~Belo Post.
    Obrigado

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    1. Amigo, muito obrigado por honrosa visita ao meu modesto espaço! Gostei imensamente de testemunhar tamanha coleção de magníficas peças que só um grande artista é capaz de produzir. Amo Portugal, de onde descendo, e todas as suas manifestações artísticas, principalmente a arte literária e de ourivesaria. Não conhecia esse tipo de trabalho a não ser a porcelana como a Vista Alegre e a cerâmica de Barcelos (creio estar certo) como produtos industriais. Fiquei fascinado com as peças únicas produzida pelo amigo. Meus parabéns! Ganhou um admirador que voltará lá ao seu espaço outras vezes. Minha gratidão! Cordialmente. Laerte.

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  12. Que pescador corajoso esse seu tio Laerte, e o meu amigo fez-lhe justiça partilhando esta extraordinária odisseia.

    Ainda bem que voltou para o nosso convívio, já tinha saudades da sua escrita.

    Um beijinho

    (antiga Fê blue bird :)

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    1. Oi Fernanda, fico vermelho com tamanho elogio. Agradeço as palavras de carinho. Também tive saudades de vocês. Mas como dizem que saudades é o amor que permanece em nossos corações. Na ausência, eu os amava. Minha gratidão. Laerte.

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  13. Olá, amigo Laerte!

    Que história fabulosa, corajosa e nós sempre querendo saber o que iria suceder ao Tio João, ao longo da leitura.

    Há homens, pescadores, principalmente esses, que arriscam tudo ou quase tudo no mar. É que espinel não é tubarão. Graças a Deus, que resultou tudo em bem, embora nosso valente pescador tenha ficado sem a barriga da perna esquerda, mas isso, decerto, para ele foi uma vitória.

    Cordiais abraços e boa semana.

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    1. Que bom que gostou, Céu. Ele era dos velhos lobos do mar, descendente dos Açores (Seus avós, creio). Grande abraço. Laerte.

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  14. Um relato de arrepiar, seu tio foi um guerreiro, lutar com um Tubara e sair vivo ´é coragem pra mamar em onça ao meio dia. Belo conto.
    Desejo uma tarde de paz!

    Abraço!

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