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segunda-feira, 19 de março de 2018

FACES HACHURADAS DA COLONIZAÇÃO AÇORIANA NO MUNDO MERIDIONAL

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No ano de 2018 ocorreu o 270º aniversário da chegada dos primeiros Açorianos em Santa Catarina, que partiram do Atlântico Norte em 21 de outubro de 1747, chegando ao Brasil em fevereiro de 1748. Foi uma emigração dos Açores, tomando posse do solo para colonizar parte do território brasileiro, porém a cultura lusitana exclui os termos migração e colonização, tendo esse deslocamento humano como uma redistribuição de habitantes de uma mesma nação a territórios diferentes. Muitos usam o termo "diáspora", evocando a dispersão do povo judeu.
O Arquipélago dos Açores foi "encontrado" por navegadores portugueses em meados do século XV, anos antes de “descobrirem” o Brasil e começar a ser explorado. Deram o nome de Açores devido aos bandos de aves que sobrevoavam as ilhas, pássaro que confundiram com o açor, uma espécie de gavião do mar. Mais tarde foram descobrir que os bandos, não eram de açores e sim de milhafres, mas já que haviam dado tal denominação, o local manteve-se com esse nome - Arquipélago dos Açores. 
Depois os portugueses descobriram o novo mundo e a corrida exploratória entre Portugal e Espanha às novas terras, tornou-se intensa. Os espanhóis optaram pela força; os portugueses pela força e um pouquinho de malandragem, pois olharam para os Açores, cheio de problemas, e tiveram uma ideia sensata. Tendo, as nove ilhas do arquipélago, sido tomadas de assalto por diversas etnias que superlotaram a todas, e como uma delas, Faial, fora atingida por erupção vulcânica de grande magnitude, despejando seus habitantes para as demais ilhas, estabeleceu-se o caos: falta de comida, miséria, prostituição e fome, já que a produção de trigo e da planta do pastel (espécie usada como corante azul em tinturaria) estavam em escassez.
O brasileiro Alexandre de Gusmão, ministro do Rei de Portugal, que no século XVI negociou o plano do Tratado de Madrid na definição de limites entre as terras descobertas, participou do estudo e concepção da tomada de posse das terras brasileiras por portugueses. Para tanto, optou pela ocupação do solo que asseguraria o direito de propriedade da terra e frustraria o sonho espanhol de a dominar como vinha fazendo com pouco pessoal. Além disso, o brigadeiro português José da Silva Paes mantinha as construções de fortificações e idealizava uma maior população à Ilha de Santa Catarina, como um entreposto para outros portos ao sul. E assim tão logo, o problema açoriano se agravou, fomentaram a emigração de habitantes de lá para o Sul do Brasil, sendo a maioria deles de etnia não lusa continental. Alguns de ancestralidade holandesa, basta olhar os olhos azuis açorianos aqui encontrados. Os emigrantes continentais, principalmente do Porto, não vinham para o Brasil para serem empregados como trabalhadores nos campos. Eles permaneciam nas cidades entregando-se às pequenas indústrias ou à aprendizagem no comércio.
O edital emitido por Sua Majestade o Rei de Portugal, proclamava regras que estabeleciam doação enumerada de diversos bens e objetos aos trabalhadores nos campos que emigrassem – uma pá, uma enxada, um machado, uma espingarda, uma vaca leiteira...  Quando aqui chegaram os imigrantes receberam da listagem, insignificantes apetrechos e tiveram que lidar com o suor e a criatividade de cada um, estreitando laços de relacionamentos com os indígenas e deles tomando hábitos para a sobrevivência. As sementes de trigos que trouxeram, em razoável quantidade, não se adaptaram às novas condições de solo, altitude e clima. E assim então, para sobreviver foram se reinventando, agregando às práticas culturais e de produção da população negra e indígena. Do negro, além da mão-de-obra que foi parte essencial na economia, agregaram costumes, adaptações na fala, que muito influenciou a cultura local, além de adotarem as mesmas festas e danças. O cultivo da mandioca, ao ser observado na cultura dos indígenas, foi associada a uma produção mecanizada à obtenção da farinha de mandioca, com os engenhos que conceberam em projetos e os construíram. O açoriano assimilou do índio Carijó o aprendizado da confecção de cestaria em taquara de bambu e cipó, aperfeiçoando o feitio de balaios e do covo para captura de peixes e lagostas. Também à confecção de armadilhas para a caça, como o mundéu, a arapuca, a esparrela o laço e o alçapão falso. Construíam igualmente, à moda indígena, a canoa escavada em um único tronco da gigante árvore garapuvu. Embarcações essas com as quais se faziam ao mar. Mais tarde, importaram projeto de lanchas baleeiras munidas de tábuas vergadas sobre o cavername. Para as cordoalhas de pesca era usada a corda em cânhamo e do sisal já plantado por eles, e para o tecido de tear, o linho e o algodão.
Os portugueses continentais casados, principalmente do Porto, vinham inicialmente ao Brasil sem as famílias para tentar a vida e trazê-las posteriormente. Muitos deles casavam-se aqui de novo.
Em meados do século XIX, na prostituição dos grandes centros como Rio de Janeiro, a falta de mulher era suprida por rapazes e muitos comerciantes portugueses utilizavam-se dos “serviços” de jovens compatriotas portugueses, é o que descreve Amilcar Filho. Tornou-se tão intensa essa prática que o Consul de Portugal, barão de Moreira, em 1846, por cartas, providenciava a importação de muitas mulheres dos Açores para substituir a prostituição masculina. Isso posto, denota-se que como muitos acham que a emigração açoriana terminara em 1807, conforme consta, verifica-se que em meados desse mesmo século, houve a maior imigração de mulheres açorianas, e muitas destinadas para os prostíbulos do Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo, o que em seguida passou a ser proibida. Era alertada a permissão da saída somente de raparigas acompanhadas de familiares, já que os Açores era a parte do país que exportava maior quantidade de mulheres e trabalhadores do campo, afirma Ramalho Ortigão em seus relatos. Com essa proibição, ocorreu mais tarde a importação de prostitutas judias, polacas e das famosas francesas.
Consta de uma família escandinava que migrou da Noruega para os Açores em embarcação própria. Dos Açores, os modernos Vikings migraram para Fortaleza, Ceará, Norte do Brasil, e alguns de seus descendentes, anos depois, partiram de Fortaleza para a Ilha de Santa Catarina em uma jangada de manufatura própria. Um de seus descendentes, em meados do ano de mil e oitocentos, foi Provedor da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos da antiga Desterro (Ilha de Santa Catarina), como descendente açoriano de sobrenome Gondin. Em 1942, outro descendente dessa família, Nilson Vasco Gondin, alista-se como voluntário combatente à Segunda Guerra Mundial. Em 1944 desembarca em Nápoles, já promovido a sargento da Força Expedicionária Brasileira. Foi um dos poucos militares brasileiros (um ilhéu catarinense), sobrevivente, que deu combate em campo de batalha em diversos assaltos como ao Monte Prano, Monte Castelo, Castelnuovo, Montese e Zocca, desalojando sangrentamente os alemães encastelados em picos de altos morros, e nosso herói, sofreu apenas ferimentos leves de estilhaços de granadas de morteiros do fogo inimigo, voltando à terra natal como herói de guerra e sendo condecorado diversas vezes.
Fontes: “As Farpas” - 1872 tomo X de José Duarte Ramalho Ortigão.
Tríbades Galantes, Fanchonos Militantes” de Amilcar T. Filho.
“Liberdade Escrita com Sangue” de Nilson Vasco Gondin.

29 comentários:

  1. A História era péssima :)) Gostei de ler

    Hoje:- Saudosa Viagem...

    Bjos
    Votos de uma boa noite

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  2. Por vezes é diferente ler a história desse lado :)

    os portugueses são em grande parte descendentes dos Celtas;
    muitos "escureceram" quando houve a miscigenação no continente, com a chegada de grande quantidade de escravos que se misturaram com a população local à medida que grande número de portugueses eram enviados para os territórios que eram descobertos

    os portugueses tinham um alto nível de conhecimento
    Coimbra a sua universidade e os seus 27 colégios religiosos eram em certa altura, o maior conjunto universitário do mundo
    por aqui passaram milhares e milhares de estudantes do continente mas também os filhos dos colonos já nascidos nos territórios de além-mar, o que, juntamente com as ligações das famílias que se criavam entre os portugueses (as) e as tribos indígenas, "tecia" laços duradouras entre as regiões do império

    nenhum povo terá construído tantas cidades e tantos monumentos por esse mundo fora, com um numero de habitantes tao limitado, pois como foram descobertas ainda com um pé na idade média, acreditava-se que era um destino divino, ... Daí que pouco trouxeram para o continente, acreditando que as terras eram suas por vontade de Deus e para a eternidade...

    ofereço:

    https://www.youtube.com/watch?v=pZXpeZdlvOA
    Grupo Fólclórico da Praia Cantando Os Bravos

    grande abraço
    Angela

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  3. Apreciei muito a partilha, assim como o comentário da Ângela.
    A História nunca foi e será objetiva. Por isso é importante ler várias fontes.
    Bjinho Laerte

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  4. O bom é saber que a história sempre vem acrescentar informações. “As Farpas” de Ortigão e Eça de Queiros está como as peculiaridades que Oswaldo Cabral nos revelou em suas descrições sobre o dia a dia dos ilhéus. Informam da realidade vidada numa sociedade em que nos deparamos com acontecimentos que ainda parecem atuais (diferente roupagem). Povos de corragem e crentes na mudança, que aqui se instalaram e com muita luta, exploração e terríveis sofrimentos, conseguiram fazer sua história e deixar marcas de grande valor. Abçs Laerte

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  5. Estamos sempre a aprender.
    Aquele abraço

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  6. Muito lindo Laerte. Um texto que nos mostra aquilo que nem sempre lemos, algo que conhecemos vagamente em poucos textos escolares, a de um povo valoroso que meio a promessas, não bem cumpridas, teve a humildade de aprender e duplicar as técnicas de trabalho e produção para fazer história no novo mundo. Pessoas, que os registros mostram, vieram em busca de riquezas na esperança de melhores condições de vida, e que aqui encontraram, como tantas ainda encontram em diferentes espaços, o sofrimento e a humilhação, mas que conseguiram imprimir seu registro que hoje é parte permanente na cultura de um povo.

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  7. Amigo, embora não tenha sido oficialmente legalizado, o dia 20 de março, desde 2004 que comemora-se como sendo o dia do Blogueiro ou da blogueira.
    Como gosto de comemorar dadas em especial aquelas que acho bem merecidas, hoje, vim aqui parabenizar você por ser esse profissional da blogsfera competente, criativo e que com muita responsabilidade mantem o seu blog.
    Parabéns por ser esse blogueiro maravilhoso que nos encanta com suas postagens.
    Abraços da amiga Lourdes.

    Tem postagem e tem selinhos comemorativos nos meus blogs.

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  8. Bela partilha, nos traz muito bom conhecimento!
    Um grande abraço.

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  9. Olá amigo!
    Eu sou formado em História, mas a vida me afastou da profissão de professor.
    Mas como historiador eu adoro ver esses fatos escondidos ou mal contados, que com o passar dos anos acabam vindo à tona.
    Na verdade meu amigo, eu cheguei à conclusão de que ninguém sabe nada de nada, históricamente e filosóficamente falando.
    A gente conhece alguns fatos, segue algumas pistas, estuda aqui e estuda alí, mas a verdade mesmo, é apenas uma questão de ótica e entendimento.

    Desculpe por escrever tanto, mas é que seu texto me inpirou a entrar nesse assunto.

    Um abraço!

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  10. Gostei de saber.
    Não conheço os Açores, mas faz parte da minha lista de locais a visitar.
    Abraço

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  11. Irei visitar, se Deus quiser, já paguei a viagem, os Açores em Julho próximo. Gostei muito desta aula de conhecimento
    .
    * Poema escrito em letras virgens. *
    .
    Abraço poético

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  12. Belíssimo seu post Laerte. Felicitações meu amigo!!!

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  13. Boa noite Laerte,
    Li várias informações
    nesse texto, que
    eu desconhecia...
    Muito bom!
    Abraço \o/

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  14. Uma interessante lição de História.
    Alguns dos aspectos focados eram-me desconhecidos.
    Bom fim de semana, caro Laerte.
    Um abraço.

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  15. Muito interessante. Gostámos muito do que lemos por aqui.

    Convidamos-vos a ler o capítulo VI do nosso conto escrito a várias mãos "Voar Sem Asas"
    https://contospartilhados.blogspot.pt/2018/03/voar-sem-asas-capitulo-vi.html

    Saudações literárias

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  16. Um post extraordinário, excelente partilha.
    Bom fim de semana
    Um abraço
    Maria de
    Divagar Sobre Tudo um Pouco

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  17. obrigada, Laerte pela excelente aula de história, fazendo-me lembrar pormenores, que já tinha esquecido, visto que professor não sabe tudo e alg. coisas vão esquecendo.

    pois, qto a colonização, Portugueses e Espanhóis atuaram, de forma diferente. nós, talvez mais trapalhões e os espanhóis mais agressivos.

    pois é, quem não tem cão, caça com gato, se diz por cá e assim os instrumentos e técnicas tiveram de ser adaptadas a esses solos, clima e culturas.

    bem, homi - rs não pode passar sem mulher, pelos vistos. se não há prostituição, entre eles, se resolvem, mas não é bem a mesma coisa, portanto vá de mandar dos açores para o brasil, mulherio.

    a História não é uma ciência exata, e portanto quem conta um conto, lhe acrescenta um ponto. tenho formação académica superior em História e mto do k aqui tu descreveste é pura verdade. não eram açores, aves, mas sim, milhafres e outros aspetos, tb.

    abraços e bom final de semana.

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  18. O comentário da Angela está impecável.
    Há por aí Dutras em todos os estratos sociais, culturais
    e ideolóicos...
    Espero não ter havido nenhuma ovelha negra...
    Um famoso historiador de Portugal atribuía a açores uma
    evolução da palavra azure que significa azul...
    Com efeito,as ilhas vistas de longe, apresentam frequentemente
    uma tonalidade azulada...
    Essa do açor, foi resultado cultura popular de mau gosto,
    apoiada por quem pretendia votos nas urnas.
    Dias agradáveis e felizes.
    ~~~~~~~~~~

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    Respostas
    1. Oi querida amiga, não te preocupes que os Dutras, por cá, foram e são todos "dutrabalho", não consta alguém "dutrambique". Grande abraço. Laerte.

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  19. Laerte, o que eu aprendi consigo e com a Angela.
    Obrigada a ambos!
    Dou nota 10 a esta lição de História. Venham mais, a colonização portuguesa dá "pano para mangas".
    Beijo e boa semana.

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  20. Excelente crónica.

    Te dejo un abrazo grande.

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  21. Quanta inspiração, Silo! Adorei o poema que deixou no meu blog.
    Obrigada.
    Um abraço.

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  22. A história é um bem precioso
    Merecendo a melhor atenção
    E nos mostra o cariz orgulhoso
    Dos que deram sua participação.

    Abraço

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  23. Laerte, passei para desejar uma Páscoa muito Feliz
    Um abraço
    Maria de
    Divagar Sobre Tudo um Pouco

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  24. Antes de mais deixo a minha gratidão pela visita adicionada de tão simpático quanto honroso comentário do caro Laerte no meu receberedar.

    Já quanto ao mais, agrada-me desde logo a multifacetada vertente deste seu SILO LÍRICO, ainda que com especial destaque para a sua muito profícua veia poética. No relativo à sua crónica histórica acima, com tudo o que os relatos históricos contenham de entre objectivo e interpretativo ou ainda de entre imparcial e parcial, no presente caso diria que me foi surpreendentemente reveladora de factores históricos que eu desconhecia enquanto tais, em especial no relativo às especificidades da emigração Açoriana para o Brasil.

    Obrigado por tudo, já estou seguidor do Silo Lírico

    VB

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  25. Olá amigo Sírio, hoje fiz uma postagem do lançamento de um livro de um jovem escritor filho de amigos, que atualmente estuda em Lisboa Portugal e lá lançou seu primeiro livro , impresso pela Ed CHIADO.
    Veio para sua terra natal, bom jardim e aqui aconteceu o lançamento. Estou prestigiando pois vi crescer e hoje é um jovem Engenheiro Agrônomo se especializando e poeta.
    O link da postagem.

    https://professoralourdesduarte.blogspot.com.br/2018/03/lancamento-do-livro-viva-em-versos-4.html

    Ficarei grata com sua visita e incentivo.

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  26. Beleza rever esta aula de História, um aguçar de lembranças do tempo de colégio. Adorei, adoro história e Geografia!
    Abraço e votos de feliz semana!

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