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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

SAUDADES DOS POMBEIROS

                             Obra de Angel San Martim

(...)
Depois de seco e empilhado
O pescado ia ao consumo
Com porções pra cada rumo,
Dependendo do mercado.
Também, a comerciantes
Que cotavam o preço antes
De obter mercadoria.
E no final, ele se ia
Por pombeiros (ambulantes).
Trecho do livro: Ilha de idílios

Pombeiro, uma figura folclórica dos Açores e do litoral de Santa Catarina, ambulantes que comercializavam de tudo: peru, pomba, galinha, fruta, hortaliça, e no nosso litoral, principalmente peixes os mais diversos. O pombeiro carregava uma vara aos ombros denominada de cambão que suportava em cada extremidade uma balaia pendurada por cordoalhas, e ele as enchia em porções iguais, em peso, para dar equilíbrio à carga. Caminhava e diante das portas anunciava o produto. Havia alguns que possuíam burros de cargas e em seus cestos ou serões, dispostos em cada um dos lados da cavalgadura, transportavam o produto à venda. Pelas ruas anunciavam, em voz alta, a natureza do que vendiam. Um deles, certa vez, se deu mal ao anunciar "ovo e uva boa" na frente da casa de uma linda viúva. 
                    
                 ***
       Na verdade, ainda há um pombeiro que passa pela minha rua a vender camarão transportado em baldes plásticos. Mas sou do tempo em que camarões eram comercializados pelos próprios tarrafeadores que saiam às ruas de samburás cheios desses crustáceos e os vendiam por cambulhões deles, porções resultantes das coletas possíveis de camarões pegos aleatoriamente pelas barbas. E ainda gratificavam o comprador com uma inhapa, como eles diziam, o que seria uma porção a mais do produto - como um agrado ao freguês. 

Mais tarde, para quantificar o produto, começaram a medi-lo pelo volume de uma latinha de azeite destapada, que afirmavam dar um quilo. E se o freguês dissesse que o camarão era graúdo só na parte de cima do samburá e ser miúdo por baixo, o vendedor fazia uma demonstração engenhosa para ludibriar o desavisado. Enfiando a mão no cesto até ao fundo, mas tendo o cuidado de deixar entre o polegar e o indicador da mão espalmada, e em zigue-zague, com movimentos para baixo a desviar dos esporões, o camarão maior, trazia do fundo, o mesmo camarão graúdo da parte de cima do cesto. Finalmente dizia: - Tás vendo teimoso, como eu não minto!...

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O TUBARÃO CACHORRO


Armação do Itapocoróy, Penha, SC, Brasil
A história que eu já conhecia e a confirmei, ocorrida em praia de pescadores artesanais do litoral catarinense, local em que fui criado, passou-se há muito tempo, mas muitas lembranças guardei do episódio. Os habitantes do lugar eram, na maioria, de descendência portuguesa com a predominância de pessoas vindas dos Açores, nos meados do século XVIII, que se estabeleceram, dedicando-se à faina pesqueira. Muitos deles viviam em função de uma armação baleeira, que na época, servia de base à extração do óleo da baleia, o qual era de utilidade na iluminação, e também exportado para outras finalidades.
Em razão de meu esquecimento dos detalhes, conferi alguns dados do causo em foco, com pescadores do lugar, onde possuo uma enormidade de amigos e também com meu primo, Cláudio Bersi de Souza, emérito conhecedor da história local.
O personagem do fato teria sido um tio-avô de Cláudio e meu, o senhor João Nepomuceno de Souza. Sabe-se, que tio João costumava ir à lida sem camarada, por gostar de pescar sozinho. Contava com a ajuda da força de um madrugador, e assim colocava sua canoa, feita de um só tronco de garapuvu, no mar, e lá ia ele à força do remo de pá ao encontro das presas acerca de quatro milhas da praia. Já levava iscado o seu espinhel fino de uns duzentos anzóis na balaia, o fundeava um pouco mais em terra e enquanto ficava no aguardo do que seria capturado naquele aparelho, remava mais para fora, onde pescava de linha e de caniço. Estava sempre munido com iscas adequadas às águas mais profundas, destinadas às presas maiores como mero, cherne, cação-mangona ou um cação-cambeva, considerado o mais saboroso e tenro tubarão. – Recordando o ditado popular, que: “cação é o tubarão que a gente come e tubarão é o cação que come a gente”.
Assim, passadas horas, Titio retornava ao porto com o pescado auferido, tanto com a pesca de linha quanto de espinhel. Como sempre viveu sozinho, ao chegar em casa, no horário próximo ao meio-dia, consertava o melhor peixe e preparava o almoço lauto, embora simples a ele.
Certa manhã de sol e brisa mansa, em mais uma pescaria, lançou o espinhel com um velador grande a poder enxergar de longe e remou em rumo de fora ao oceano aberto para tentar a sorte. Fundeou a embarcação com uma poita pequena, deixando o cabo bem curto, quase a prumo, e jogou o anzol grande munido de isca com metade de uma combreia (enguia). Muita demora houve sem qualquer beliscada, enquanto isso, João se distraia com algumas palombetas miúdas que ia desferrando do anzol pequeno de seu caniço curto.
Eis que repente, a linha trançada ao banco do meio tesou e por pouco não emborcou a canoa. Ele, imediatamente fez peso com o corpo no bordo contrário equilibrando a flutuação a dar estabilidade, guardou o caniço e deu mais fieira ao peixe que tentava arrastar pela popa, a embarcação fundeada com a amarra na proa. A luta se estendeu por mais de uma hora, entre o lobo do mar solitário e a enigmática presa que parecia enorme. Ora o tio João soltava corda de amarra ancorada na poita e colhia linha de pesca, ora a soltava mais, içando o cabo de amarra da âncora para cansar aquilo que havia ferrado, que parecia não ceder tão facilmente.
Com a luta contínua, as energias de ambos iam se esvaindo. Finalmente, a capitulação ou preito do vencido e a expectativa de triunfo do pescador cansado, que pôde recolher a poita e deixar a presa ir conduzindo a canoa a seu bel-prazer, que casualmente, era em direção a terra no mesmo sentido que levava ao velador do apetrecho de pesca fundeado. E pouco a pouco, João colhia a linha sem que o oponente sentisse. Já com poucas forças para o embate final, próximo à boia de fora do espinhel, o peixe estava perto, embora em maior profundidade da água turva causada pela lestada da semana anterior que provocou enormes marolas no mar. A cada onda que vinha, a nau pendia e por pouco não bebia água pela borda tracionada à força do enorme peso. A contrabalançar o adernamento, aquele marinheiro safo mantinha o contrapeso no bordo oposto, o que o cansava, deixando-o mais tenso ante o naufrágio iminente.  A poucos metros da canoa, o tubarão surgiu, dando para ver o seu grande porte, a tempo de arquitetar o embarque.
João, homem de grande experiência, conhecedor das artimanhas, sabia que se fizesse o animal ter um segmento de ré, ele soltaria o estômago pela boca e morreria. Por essa razão, que a fim de liquidá-lo com maior facilidade, pescadores tentam laçar ou bucheirar[1] o rabo do tubarão, tracionando-o para trás, na direção oposta ao seu deslocamento natural, já que o estômago é solto dento da barriga e qualquer movimento contrário à frente, pode fazê-lo o expelir pela boca. Outra forma usada para abate, seria golpeando-o na cabeça.
Tio João escolheu a técnica de bucheirá-lo pela boca. Apesar das poucas forças que lhe sobravam, trouxe-o à borda e enrolou o seio da linha na toleteira do lado oposto da embarcação.
Munido com o porrete de ipê caçaranha na mão direita e o bucheiro de cabo em madeira de lei amarrado por uma corda que a trançou ao banco da proa, passando-a pelo escovém, ele se preparou ao desfecho final do embate. Daquela forma, conseguiu cravar o robusto anzol do bucheiro no canto da boca do tubarão, mobilizando a cabeça junto à borda. Quando pôde, ver detalhes e analisar a espécie, reconhecendo ser uma mangona, excelente ao consumo humano.
Ao tencionar mais o cabo, tracionando-o pela corda, João colocou o foucinho do cação para o lado de dentro da canoa e desfechou várias bordoadas no crânio do animal, que depois de alguns minutos pareceu desfalecido. Mantendo a borda próxima ao nível da água, com muitíssimo sacrifício conseguiu embarcá-lo, estimando que pelo esforço feito, pesasse uns setenta quilos.
Semi-desfalecida, a mangona agonizava no fundo da embarcação, enquanto João pôs-se a remar até o espinhel. Remava em pé, junto ao rabo do peixe, por ter ciência que exemplares daquela espécie quando colocados sobre o convés de um barco, vivos ainda, são capazes de rastejar e atacar o que estiver pela frente, semelhante a um cachorro. Por isso o cuidado de ficar posicionado atrás da fera - não estando seguro da letargia do cão.
Não demorou muito, já perto do espinhel, o animal deu um pinote a quase cair ao mar, voltando-se em sentido contrário, a cento e oitenta graus da posição em que jazia ao fundo da canoa.  Ato contínuo, abocanhou a perna do homem que não conseguia desvencilhar-se daquela bocarra, parecendo ter dado o último suspiro com os dentes cravados a ela. O velho lobo do mar, com toda a fleuma, grande característica do experiente pescador, soube esquecer todo material fundeado, para singrar calmamente até seu porto de origem, com a mangona agarrada em sua panturrilha esquerda, onde ao chegar, o socorreram.
Eu conheci o tio João, o João Mariquinha, como o chamavam, por ser filho da tia Mariquinha, já velho e solteirão, mancando, e lembro que quando ele arregaçava a calça até aos joelhos para entrar no mar, notava-se a falta da barriga de sua perna esquerda.



[1] Bucheiro - grande anzol munido de cabo de madeira amarrado à corda. Bucheirar é prender a presa por meio desse anzol para içá-la à embarcação.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

CARMEN MIRANDA - A PORTUGUESA BRASILEIRA



    Hoje é dia do nascimento de Carmen Miranda. Portugal e Brasil são tão interligados por laços estruturais que eu me sinto um cidadão brasileiro com cidadania portuguesa ou um brasileiro português, assim como Carmem foi uma portuguesa brasileira. Dizem que comentava aos mais chegados amigos norte-americanos, para convencê-los que ela nada tinha a ver com os Estados Unidos da América e que apenas trabalhava naquele país, sentir-se ser uma artista brasileira e cidadã portuguesa.

     Carmen Miranda em 20 anos de carreira teve um total de 313 canções: com 279 gravações somente no Brasil e mais 34 nos EUA. Primeira artista latino-americana a ser convidada a imprimir suas mãos e pés no pátio do Grauman's Chinese Theatre, em 1941. Também se tornou a primeira sul-americana homenageada com uma estrela na Calçada da Fama. Em Hollywood foi oficialmente nomeada Carmen Miranda Square, em setembro de 1998. Atualmente, nenhum artista brasileiro teve tamanha projeção internacional como ela. 
    Carmen, de nacionalidade portuguesa, nasceu em Várzea da Ovelha e Aliviada, Marco de Canaveses, distrito do Porto, em 9 de fevereiro de 1909. Sua carreira artística transcorreu no Brasil, Estados Unidos e na China entre as décadas de 1930 e 1950. Também trabalhou em rádio, no teatro de revista, cinema e na televisão. A "Pequena Notável", como era denominada, chegou ao Brasil com menos de um ano de idade, acompanhada de sua mãe e uma irmã, reencontrando o pai (função de barbeiro) que já morava no país há pouco mais de um ano.

     No Rio de Janeiro, Carmen inicialmente trabalhou como vendedora de gravatas em uma loja e posteriormente em uma chapelaria. Relatos confirmam que, inspirada na irmã Olinda, ela cantava para atrair clientes.  

Cantaste como um pássaro que canta
Para encantar com canto e com encanto
A alma alegre de um povo, e entretanto,
De ave afável, tu passaste a santa

Por maviosa voz que se levanta 
E brada a altivez do pobre, santo
E alegre povo para grande espanto, 
Por mega voz de pequena garganta,

De um universo inteiro de artistas.
Carmen Miranda, as tuas conquistas
Engrandeceram Brasil / Portugal

E hoje vives em nossa memória 
Como expoente vivo de uma história
Cantada em versos, por Ser Imortal.