Linguagem[+]

terça-feira, 29 de novembro de 2016

UM VOO



Hoje enxerguei a aurora 
Sem luz. E o meu coração
Junto d'alma, à escuridão,
Sentia a dor que devora
A paz. Na primeira hora
Do dia, com sol nascente,
A dar essa dor pungente 
Pela notícia da morte
Do um time inteiro de esporte 
Que mais alegrava a gente?!...

O time Chapecoense, 
Num voo ao rumo da sorte,
Chegou, à deriva, à morte
Por razões que não convence 
À própria razão que vence, 
Quase sempre, o sentimento.
Mas hoje, e neste momento,
A dor vencendo a razão
Faz meu pobre coração
Pulsar de dor em lamento.

À razão não existe luz
Que ampare uma dor profunda.
Quando a emoção inunda
O olhar, ele conduz
À cegueira, a qual faz jus
A própria alma de luto
Irrestrito e absoluto.
E a humana criatura,
Erroneamente procura
Manter seu olhar enxuto...

Com lágrimas, à luz da aurora,
Eu vendo Sul, Leste, Norte
E Oeste  enxergava a morte
Pelos quadrantes afora.
Quando o Sol saiu de fora
Trouxe-me nova emoção, 
Por vir com ele a noção
Que os mortos veriam a luz
Da Palavra de Jesus:
Eis, Pai, minha alma à Tua mão!

Veja um minuto de silêncio de nossos amigos portugueses do Benfica: https://www.youtube.com/watch?v=PsenWSwegfY 

e os meus agradecimentos como brasileiro catarinense e de coração xanxerense por parte de esposa:

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CRUZ E SOUSA - O SIMBOLISTA BRASILEIRO

Homenagem ao primeiro simbolista brasileiro
O CISNE NEGRO



João da Cruz e Sousa nasceu em 24 de novembro de 1861 em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, SC. Filho de escravos alforriados, quando menino, ficou sob tutela, do então, marechal Guilherme Xavier de Sousa - adotando o nome de família, Sousa. Ali recebeu uma educação das mais refinadas orientada pela esposa de Guilherme. O casal, não tendo filhos, Clarinda Fagundes Xavier de Sousa, passou a proteger e cuidar da educação de João que estudou francês, latim e grego, além de ter se tornado discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendera Matemática e Ciências Naturais.

Cruz e Sousa dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual combatia a escravidão e o preconceito racial, mas foi recusado como Promotor de Justiça na cidade de Laguna, SC, por ser negro. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil e colaborou com diversos jornais. Na literatura, cuja alcunha era Dante Negro ou Cisne Negro, tornou-se um dos precursores do Simbolismo no Brasil - "Missal" e "Broquéis" são consideradas as obras que inauguram o Simbolismo Brasileiro. Na obra "Missal" os poemas em prosa, têm o estilo, num caráter inspirado no francês Charles Baudelaire. Sousa, tal como seus quatro filhos, morreu por tuberculose.

Atualmente, seus restos mortais encontram-se no jardim do Palácio Cruz e Sousa em Florianópolis.

 

 

 

CRUZ E SOUSA

- IN MEMORIAM

            Laerte Sílvio Tavares

Amigo, eu te amo tanto
Que chego a chegar ao pranto
Por tanto que te admiro.
Portanto, és um retiro,
Sublime, espiritual
Por tua obra magistral
De elevado requinte.
Não há artista que pinte
Algo como tu pintastes
Com cores e com contrastes
Que só as palavras dão.
Essa enorme dimensão
Do verbo, pareces deus
Feito Deus e verbos Seus.
Tuas criações são divinas
Como supostas doutrinas
De um deus menor – não pequeno.
Cisne de um lago sereno
Vagastes noites e dias
A produzir poesias
Com bastante engenho e arte
Deixando parte de parte
De ti nesta arte suprema,
Quer em soneto ou poema
Onde estampas tua marca
De excelência, qual monarca,
Em tudo a expor seu brasão.
Tua marca é a expressão
Real de um Simbolista.
Entre artistas, és o artista
Maior de todos, eu creio,
Que existiu nesse meio.
Fostes a grande figura
Que fez a literatura
Desterrense ser eterna
Por tua face fraterna
Irmã de Várzea, Virgílio,
Como agentes do delírio,
À época, de teu leitor.
Hoje tu és morador
Único no grande palácio
Por fazer a flor do Lácio,
Nossa língua portuguesa,
Ter bem mais vida e beleza
Com som melhor afinado
Pelo teu grande legado.
O violão toca assim
E ponteia o bandolim:

 “Violões que Choram

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua.
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas no sonho,
Almas que se abismaram no mistério. 
           (... contém mais duas páginas)
            Cruz e Sousa (janeiro, 1897)



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

CECÍLIA MEIRELES

      


Em novembro comemora-se as datas de nascimento (07/11/1901) e de falecimento  (9/11), da jornalista, pintora, professora e escritora (poesia, prosa, conto, crônica) brasileira, Cecília Meireles. 
      Ela, aos três anos de idade, com a perda da mãe, passou a morar com a avó materna, Jacinta Garcia Benevides - portuguesa nascida na Ilha de São Miguel, Açores. A avó criou a neta com ajuda da babá Pedrina, quem sempre contava histórias, à noite, à pequena e tida como responsável a influenciar muito a garota, ao caminho da poesia.
      Cecília cursou o primário na Escola Municipal Estácio de Sá, Rio de Janeiro, onde ao concluir o curso em 1910 (nove anos de idade), recebeu pelo esforço e excelente desempenho "com distinção e louvor", das mãos do grande poeta Olavo Bilac, Inspetor Escolar à época, uma Medalha de Ouro que levava o nome do poeta, Medalha Olavo Bilac. Nesse período, já chegou a escrever seus primeiros versos, além de estudar canto, violão e violino no Conservatório Nacional de Música, pois, sonhava em escrever uma ópera sobre o Apóstolo São Paulo. Porém, depois se dedicou mais à literatura por perceber que não conseguiria se empenhar com perfeição a tantas atividades simultaneamente. Aqui deixo um poemeto à artista com as devidas escusas pela qualidade dos versos, aquém do merecimento da insigne poetisa. Deixo também uma estrofe em décima postada em comentário de blog versando matéria da artista em foco.

Obra de Cecília - estudos do folclore

Cecília Meireles - a Vênus da Poesia 
                                  Autor: Laerte Tavares.


Oh Vésper de esplendor,
O teu fulgor contagia,
Dá luz para a poesia,
Potencializa o amor!

És a sentimental flor
Que em sentimento irradia
A luz do amor, por via
De teus matizes e cor.

E assim ao nosso universo
Teu sentimento é disperso
Em versos com maestria.

Desculpe o meu pobre verso
Que a ti eu faço, diverso
Do teu onde há poesia.


Comentário:

A humilde professora
Do doce ensino infantil
Fez despertar o Brasil
Com a sua avassaladora
Poesia, que ela a doura,
Para uma nova jornada
Da arte já consagrada.
Dando novo toque à arte 
Cecília a ungiu com parte
De parte da sua vida.
                         Laerte Tavares.


terça-feira, 1 de novembro de 2016

DIA DO PÃO-POR-DEUS



    exemplos em trabalhos pedagógico 

Hoje, tradicionalmente aqui na Ilha, era também, o dia do Pão-por-Deus, que seria um tipo de peditório amoroso. O nome é associado às práticas relacionadas às refeições cerimoniais do culto dos mortos. O Pão-por-Deus teve origem em Portugal. Há relatos que um ano depois do terremoto que destruiu Lisboa neste dia (1/11/1755), onde o peditório seria para angariar fundos à ajuda das vítimas da catástrofe.
     Depois, ainda lá, a tradição passou às crianças, saindo às ruas em pequenos grupos a pedir Pão-por-Deus de porta em porta e recebiam doces, broas, romãs, frutos secos, nozes, castanhas, que colocavam em seus bornais e voltavam para casa cantando felizes.
     No Brasil a tradição do Pão-por-Deus chegou, com os açorianos, ao litoral de Santa Catarina (1748). Na época essa tradição tinha outro viés; as pessoas se comunicavam através de mensagens escritas em papéis coloridos e rendilhados com o formato de coração, feito à mão. E nessas missivas eram escritos versos, em quadrinhas ao gosto popular, pedindo algo. Aqui nesta abençoada Ilha de idílios, os pedidos normalmente eram amorosos para namoro. Quando o rapaz se atrevia a fazer o pedido, e se a rapariga demonstrasse grande interesse, mandava-lhe em retribuição, até um bolo muito bem confeccionado em formato de coração – existia fôrmas apropriadas para isso e quando a pessoa não dispunha desse utensílio, fazia um pão de massa no mesmo formato. As quadrinhas eram mais ou menos assim:
Lá vai o meu coração
Com o vai e vem da maré,
Vai pedir-te um Pão-por-Deus
Que é teu amor e tua fé.

Lá vai o meu coração
À vela, com um vento duro,
Vai pedir-te um Pão-por-Deus,
O amor: meu porto seguro.

La vai o meu coração
Com um barqueiro remador
Vai pedir-te um Pão-por-Deus,
Que é tua fé e amor.

La vai o meu coração
Na asa de uma andorinha
Vai pedir-te um Pão-por-Deus,
O teu amor, oh rainha!

P.S. - Questionado, devo esclarecer que os rapazes à época não seriam de prendas domésticas. Os belos corações em papéis diversos, eram confeccionados por tias velhas, irmãs ou vizinhas desses moços que se ofereciam ao serviço. Os marinheiros embarcadiços, às vezes embrutecidos pela inclemência do mar e suas agruras (muitas vezes considerados rudes), assim como tinham suas habilidades maravilhosas em artes de marinharia com nós e com pinhas de retinidas mais diversas, faziam esses corações (há relatos em diários particulares de bordo - não no diário-de-bordo...) todos eles rendados aos cortes de navalhas de barbear.


                     Grosseiramente, seria assim, com melhores desenhos.