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terça-feira, 19 de abril de 2016

ARMAÇÃO DO ITAPOCORÓY






















           Autor: Laerte Tavares.                                                                         
          
Minha Armação bela e calma,
Tu és a paz de minha alma.

Tua enseada singela
Com o muro que te constrói
(De nome Itapocoróy),
Por trás, de forma tão bela,
Tem a Praia da Cancela
Como sendo a mais virada
De costas, nesta enseada,
Para o oceano aberto,
Mas mesmo assim, muito perto
Da atlântica orla molhada.

Se vê o Sol, desta praia,
Se pondo dentro do mar
Se refletindo e a pintar
O céu, com cor que se espraia
Pela penumbra e desmaia
Nos braços da Penha, à frente,
Para tingir o poente
De um amarelo canário,
Formando lindo cenário
Transcendental – comovente. 

Após a Cancela, vem
A praia, dita Companha.
De mansidão tão tamanha,
É justo, o nome que tem:
Guarnição feita por quem
Pertence à tripulação
De alerta - de prontidão
Sem fazer nada, esperando
Chegar a baleia – quando
Ela entra ao mutirão.

Da Companha, em seguimento,
A Praia da Carioca  
Surge em seguida e evoca
Fonte do abastecimento  
De água para o evento
De arribada pra aguar
Embarcações que ao mar
Navegando nesta costa,
Chega à esta fonte disposta
A dar a água salutar.

O Porto da Carioca
É bem antes da Igreja,
Ou quase em frente, que seja,
À Croa, que o povo enfoca
Como Coroa por troca
De nome. Por sentido,
Uma croa é um sugerido
Nome a representar
Um certo baixio no mar
Que nunca é emergido. 

Dois molhes, formam a Croa,
De pedras soltas pequenas,
Sendo pedras as centenas
Ou aos milhares, à toa.
Um molhe pra fora aproa,
Outro em transverso sentido
Ao primeiro, parecido
A uma baleia encalhada
No baixio da enseada
Tendo por gosto morrido.

Seguindo, vem o Cascalho.
Ponta da Cruz em seguida,
Por primeira cruz erguida,
Portuguesa, de carvalho,
Nesta ponta, cujo malho
Do mar fez um Boqueirão,
E deu nome à erosão
Feita a critério do mar.
No vão dá para passar
Só miúda embarcação.

Assim, a Ponta da Cruz
É o marco inicial 
Do muro monumental
Que cerca a praia e jus
Ao nome que nos induz
Pensar em uma muralha
Descomunal que se espalha
Dessa ponta para frente
“Itapocoroyamente”
Como o cerco de uma tralha. 

E o Buraco do Pato,
Denominação de abrigo,
Ou caverna que consigo
Crer no nome como o fato
De vir direto do mato
Patos para procriar
Em meio àquele lugar.
Mesmo não tendo certeza,
Vê-se que a natureza
Deu aos bichos esse lar...

A Praia da Paciência
Fechada no mar revolto
Deixa o pensamento solto
A cismar na ocorrência
Do nome, e pela evidência
É da espera demorada
Das lanchas na emboscada
Para arpoar a baleia
Que era à vontade, alheia
E sem poder fazer nada.

Da Paciência se via
Uma outra ponta à frente,
Ponta da Gaivota, rente
Quase à Ponta da Vigia,
Onde o olheiro fazia
A vigilância sozinho
Tendo que seguir caminho
Do costão em maré-cheia,
Para avisar da baleia
Avistada, ao vizinho. 

Assim, virando o costão,
Há a Toca do Marimbá
Nesse mar que fica, já
Atrás da doce Armação,
E do estendido costão
Pescam de vara um peixinho,
Tipo que nada sozinho,
O marimbá que há bastante.
Por isso, o nome constante
Ao local e ao caminho.

A Praia do Santo Antônio
Com a referência de santo
É junta à Praia do Canto,
Um sagrado patrimônio
Do santo do matrimônio
Por sugestão ao enleio.
Seguindo é a Pedra do Meio
Que cerca a Praia do Lanço
E tendo um mar muito manso
Sempre o arrastão vinha cheio.

A Pedra da Cerca, além,
É molhe a que o mar abrande
A terminar Praia Grande.
A Praia da Chica, aquém
Da Praia do Poá, tem
Mar de plena mansidão.
E o nome é por sugestão
À tal moradora Chica.
O nome significa
Nada mais que ela, então. 

E a Pedra da Figueira
Tinha uma figueira nela,
Pois do mar se via aquela
Planta como uma aroeira
Despontando de maneira
A perfilar-se com a Ponta
Do Fincapé, onde aponta
Bom pesqueiro lá de fora
A se pôr a rede na hora
Em que a Figueira desponta.

Mas antes do Fincapé
Estende-se o Costão Liso
Onde, à pesca, é um paraíso,
Pela Recife que é
       Estendida quase até
Ao Lajeado de Fora,
Tão bom pesqueiro que outrora
Deu nome pra região
Do Fincapé que de então,
Tem o nome até agora.

É que quando iam pescar
De caniço e samburá
Os pés se fincavam lá,
Na areia deste lugar
E logo ao desenterrar
Surgiam, sujos por lamas
E pequeninas escamas,
Bem como a isca do anzol,
A refletir posta ao sol
Virava brilhante em chamas. 

A monazítica areia
Como fenômeno novo
Tornou-se o vício do povo
E por ser escura e feia
Como o fumo de candeia,
Muitos chamavam de lama
A esse solo com fama
Para usá-lo em terapia,
Até de paralisia,
Dos que viviam na cama.

Dizem que um alemão,
Tênis Bornhausen, chamado,
Comprou nesse povoado
Um terreno para chão
De casa, e fez construção
Às férias e pescarias,             
Mas também às terapias,
Dele e de seus amigos
Que de barracas e abrigos
Vinham para passar dias.

O Poá ficou com fama
Pelas curas. Sua glória
Permaneceu na história
Sendo uma praia de lama
Que ainda se proclama
Como certo paraíso
Pela crença ou por juízo
Desses que vinham ao recanto
Procurando pelo santo
Remédio certo ou preciso. 

Pois bem: e no Fincapé,
Tem ponta de nome igual
Ponta do Fincapé, mal
Atada à Santa Marta,
Uma praia que em carta
Náutica consta perigo,
Desde tempo bem antigo.
E a Ponta do Paiol encanta
Pela caverna, um abrigo.

Antigamente paiol
Era um silo de farinha
De mandioca que tinha
A função de ser em prol
De manutenção sem sol,
Nem umedecimento
Que se dava em detrimento,
De uma boa qualidade
Se ficasse à claridade
Sem o armazenamento.

Assim, o Paiol abrigo,
Dada a enorme cratera
Aberta ao mar, à espera
Quer de farinha de trigo,
Ou de qualquer outro artigo
Para ser armazenado,
Com abertura de um lado:
O lado do mar aberto,
E armazena, por certo,
Só sonhos, tão desolado. 

Tem o Rego do Varrido
E a Passagem do Cachorro.
Além, São Roque, um morro,
A Prainha da Estrela,
Que é tão bonita de vê-la
Pela sua enorme Ponta,
Ponta da Estrela que aponta,
Em saída do costão,
Para o mar numa extensão
Enorme, e o vento defronta.

O Poço Negro é um pesqueiro
Como tantos do costão
Para o arremesso de mão,
Caniço, ou ao aventureiro
Do mergulho, sendo inteiro
De profundeza “abissal”.
Há outro pesqueiro igual:
O Canta Galo, bem perto
Da praia do lanço, certo
À tainha sazonal.

O meu avô me dizia
Da razão do Canta Galo,
Esse pequeno intervalo
De costão, cuja ardentia
Em noite sem luz, luzia
Como um boitatá gigante,
Por isso, há história bastante
Do causo que ocorria,
De uma fantasmagoria
Que era horripilante. 

Causo de causar espanto          
Foi o do galo encantado
Cantando e ecoando ao lado
O seu tenebroso canto
De mau agouro, entretanto
A ave não existia
E nem cantava de dia
Só à noite, e fora d’hora
Que se ouvia lá de fora,
Desde a Ponta da Vigia.

Do Lanço, à Pedra do Monge,
À Velha, à Praia Vermelha
Com areia que assemelha
Em visão meio de longe,
Igual esponja que esponje
Após uma maré-cheia.
E segue: o Rabo da Baleia,
A Laje Grande, no mar:
Praia da Galheta a estar
De cor bem clara na areia.

É na Ponta Negra, enfim,
Finaliza a proteção
Que cerca toda a Armação
Da fúria do mar sem fim,
Por ser abrigada assim
Vive tranquila, a baía
Sem ressaca ou maresia
Com águas calmas de lago.
Ah... Armação, és meu pago!
És minha doce alegria! 

Vejo o sol nascendo atrás
Para morrer afogado
Dentro do mar do outro lado,
Onde o astro à noite jaz.
Armação descansa em paz
Ao som das ondas do mar
No silêncio a marulhar.
E a Ilha Feia, vizinha
Da praia, à noite e sozinha
Contempla-a, à luz do luar.

O Itacolomy distante
É ilha, qual sentinela
Que do oceano olha ela,
A Armação à diante,
De visual repousante
Parece um ente sagrado
Repousando do outro lado
Propício à comtemplação
E a ilha olha Armação
Qual sentinela - um soldado.

À esquerda da Cancela
Tem a Praia do Curral,
Depois Manguinhos. O tal
Nome da praia, é sequela
Do mangue que havia nela,
No rio do Miguel Inácio
Que abria a praia em prefácio
Para seguir a leitura,
Do texto que se afigura
À lição do cartapácio. 

A “Praia dos Alemão”,
É antes da Fortaleza
Em que a mãe natureza
Fez de Pedra, a construção
De um forte de proteção
Projetando-se ao mar,
E dando nome ao lugar
De Praia da Fortaleza
Pela pedra, com certeza,
Que é um forte ou similar.

Segue a Praia da Armação,
Até a Praia das Pedrinhas.
E tu, Quilombo que tinhas
Que ser representação
A mostrar que a escravidão
Não havia só além.
E à frente, um pouquinho, vem
A bela Ponta da Cuca,
Nome da velha caduca
Que lá vivia também.

Este é o meu reino encantado!
Doce e querida Armação,
O tão amado Torrão,
Berço onde fui batizado,
Linda Pátria, meu legado,
Nação de meu povo e minha,
Nossa Querida Terrinha
Fundada por portugueses
Miscigenados, por vezes,
Ao índio que muito tinha. 

Ah... Amo tanto esse chão
Tão belo, tão fascinante!
Tenho-o respeito, o bastante,
E do fundo do coração,
Estimo seu povo, um irmão
Mais velho meu, e que tem
Respeito à terra também.
Dedico a ela o meu verso,
À mãe do meu universo
Que tanto eu o quero bem.

Endosso o poema feito,
Cuja lembrança evoca
O Tavi, o filho do Toca,
Violeiro de respeito
E um poeta perfeito:
“Minha Armação do Itapocoróy,
Longe de ti, as saudades, dói...”
A ele, a nossa homenagem
Por deixar essa bagagem
Que a mente a reconstrói.

Quem me informou agradeço:
Feda, filho da Batista
E Zé Silva, deu lista
De alguns nomes, no começo.
A seguir, como endereço
Que a Carta Náutica traz
Para essas partes de trás
De Armação, foi Carlinho,
Que enumerou em alinho
Muito mais nomes, num zás. 

Carlinho, o Orival Rebelo
Do seu Maneca padeiro,
Um pescador companheiro
À conversa, e com desvelo
Citou tal rosário. Ao tê-lo
Compus assim o poema
De Itapocoróy por tema
E Armação, poesia,
Pois a amo, com idolatria
E é de paixão minha, extrema.

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